sábado, 21 de Fevereiro de 2009

O Tom e o Género.

José Sócrates convidou Hugo Chávez para estar presente no próximo Congresso do Partido Socialista, sob o lema das relações próximas entre os dois países. À parte da questão petrolífera, a proximidade entre Sócrates e Chávez habita invariavelmente no tom e no género comuns de fazer política.

quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

Ainda essa Tal questão

Concordo, João .
E alimento , apesar de tudo o que disse anteriormente, a convicção que toda a controvérsia em torno dessa Tal questão, para mim dada por resolvida de há muitos anos a esta parte, contribua, por pouco que seja, para que este tipo de notícias deixe de ser notícia.

http://noticias.sapo.pt/lusa/artigo/9341611.html


quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

Essa Tal Questão.

O Fernando Mouro puxa para a mesa de debate o casamento homossexual. É curioso como se continua a discutir a possibilidade legal e civil de duas pessoas se unirem em laços socialmente considerados. Claro que essa união tem um pendor profundamente catolizado o que legitima a Igreja a comentar e proferir palavras de desencorajamento. É óbvio, que o casamento civil entre homossexuais não deveria estar ainda em julgamente ou pior ainda ser tratado com algum receio. A homossexualidade é uma verdade pragmática, é um dado social como qualquer outro. Representa condições naturais, genéticas e psicológicas próprias, tão naturais como a heterossexualidade. Existindo naturalmente deve ser legalmente constituída como representação de união civil. A Igreja representa o papel que lhe historica e culturalmente destinado. A laicidade representa o seu. No espaço entre essa dualidade vive o social em todas as suas representações. Tudo o mais que não seja a serena passagem da confirmação laica das possibilidades de união homossexual tratam-se de manobras carregadas de oportunismo mediático, de marketing de ocasião, e de publicidade eleitoralista. Entretanto, vai entretendo os portugueses vítimas de uma crise global. Não é pão e circo mas é parecido. E ao ser parecido retira grande parte do valor simbólico da luta subjacente.

Ainda a "questão fracturante" ...-

1. Privado de televisão e Internet durante o fim de semana e parte do dia de segunda feira, retenho da leitura dos jornais a afirmação de Miguel Sousa Tavares, relativamente ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, «que basta ler esse livro sumptuoso que é "As Memórias de Adriano" para perceber que o amor entre as pessoas não é um exclusivo dos heterossexuais....» .
Retenho uma afirmação semelhante de Daniel Sampaio, numa das revistas que acompanham um dos jornais de fim de semana.
Subscrevo-as integralmente.E surpreende-me quando querem limitar este tipo de relações, por serem imorais ou contra natura, entre muitos outros ditos e escritos.
Reconheço que ao amor é dado o poder de se materializar das mais diversas maneiras. Uma delas é a sexualidade. Que,tal como tudo, terá os seus limites,sobretudo quando se traduz no exercício de qualquer tipo de poder que obrigue à submissão, à perversão à quebra da dignidade do outro.
O que, certamente, não é caso.


2. À noite sou, de novo, bombardeado com o mesmo tema, agora num programa de televisão.
Continuo sem perceber o porquê de tanta agitação e de tanto berreiro e, sobretudo, se vivemos num estado laico, custa-me a entender a permanente intromissão entre o laico e o religioso. O senhor Primeiro Ministro, independentemente das razões que o norteiam, colocou a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo: estamos perante uma questão de direitos civis.Se é uma questão de direitos civis não é à Igreja Católica que se tem de pedir que intervenha. Se o senhor Primeiro Ministro se tivesse pronunciado sobre o sacramento do casamento,aí a Igreja Católica teria a legitimidade, o dever e a obrigação de defender os seus valores -com maior ou menor abertura, gerindo o diálogo no seu interior, sarando feridas seculares.

Quero eu dizer que à Igreja Católica e às demais religiões é vedada a intervenção na sociedade civil? Evidentemente que não.Todas desempenham um papel social fundamental, primordialmente de regulação , seja no acolhimento das minorias, na distribuição das riquezas, na promoção da igualdade, no apoio aos mais desfavorecidos e carenciados.

Quanto ao assunto em questão parece-me este mais uma forma de ajudar à legitimação de manobras que podem ser lidas como medidas mais ou menos eleitoralistas,como atitudes preventivas de cisões partidárias internas ou qualquer outra coisa semelhante.

segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

A Democracia Chavista (2)

A Isabel antecipou-se. Resta-me dizer que Chávez sobrevive, politicamente falando, graças a uma ideia de 'esquerda' que assenta num pressuposto "do que há-de vir". E se o amanhã será bom - mesmo não sabendo quando é esse amanhã - nada como dar tempo ao profeta para que guie o povo até aos melhores dias. Retórica ditatorial, pois claro.

E uma certa ideia de esquerda saltita alegremente

Pela Venezuela tanto se insistiu no referendo ao "sim" à vida eterna do líder político que ele lá chegou de prenda ao ditador.
Eu não vou cometer o erro de confundir as eleições do partido socialista em que só um terço dos militantes elegeu Sócrates (um terço e ainda há quem se regozije), ainda que esse terço esteja todo a carregar a vela para o seu santo padroeiro do momento, com as eleições no referendo venezuelano. Apesar de tudo os venezuelanos têm um líder tentacular mais canhestro na forma como se impôs sobre a oposição. O nosso não sente necessidade de alterar a legislação eleitoral, e até confio que não seja por aí a sua ideia de exercício do poder, mas vai comprando, euro a euro, os portugueses, despejando dinheiro sobre os problemas nestes últimos meses de eleições, e mantendo a rédea curta dos que se pensavam donos do poder não político. Quem cala consente.

A crise não se resolve com mais ideologia de esquerda, mas com mais ideologia democrática: é cada vez mais necessário que os poderes sejam independentes entre si, de forma absoluta, para dar garantias de coerência e de estabilidade procedimental. É preciso (fazer) respeitar os direitos constitucionais, é preciso fiscalizar a sua boa aplicação, é preciso que o Estado assegura o regular funcionamento desses poderes, aplicando-os a todos os cidadãos e aos serviço de todos os cidadãos, não se intrometendo na liberdade de expressão e de circulação de cada um.

Nem a propósito surge esta notícia, fundamental para a democracia:fiscalização das medidas dos governos pelos Tribunais de contas europeus.

sábado, 14 de Fevereiro de 2009

A Democracia Chavista

Hugo Chávez leva demasiado à letra a máxima que diz "democracia é quando eu mando em ti, tirania é quando tu mandas em mim". O eurodeputado espanhol Luís Herrero foi convidado a abandonar a Venezuela depois de ter chamado "ditador" a Chávez. Há feitios e feitios e Chávez é como o nosso primeiro-ministro as críticas governativas só têm graça quando atacam os outros. Raios 'parta a liberdade de expressão! Pois...

Ao som de algo mais (3)

Caro Fernando, totalmente de acordo. O português desconhece muito o brasileiro e vice-versa. O que há, na verdade, é um pseudo-conhecimento centrado em lugares comuns que são veiculados exaustivamente pelos media. Tratam-se, claro, fragmentos da realidade, elementos filtrados de uma realidade que é um todo complexo. Esse Brasil desconhecido daria um belo livro. O Brasil que vemos à distância é a parte que cabe nos discursos oficiais, filhos de um velho paradigma uniculturalista. No fim dessa linha começa outra realidade. Da minha parte espero a publicação da minha estreia literária com "Afro-Brasileirando, cultura e identidade negra no Brasil, ontem e hoje". Veremos se sairá. Esse Brasil que lá falo é filho de uma escravatura que se manteve na sociedade através de um racismo umas vezes claro, outras tantas camuflado. Se me permitem, já agora, sugiro travar conhecimento com esta associação. Vale a pena conhecer o projecto cultural.

sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Ao som de algo mais (2)

1. Nos anos 70, para os que a ouvíamos, era certo que a música brasileira (convém não esquecer que nem toda ela era a certa) tinha conotações anti-ditadura. Lembro-me do Chico e do Caetano ao vivo, cujo disco, passava discretamente por várias mãos; ou da quase sessão clandestina, em Algés, pra se ouvir um LP do Juca Chaves; foi, igualmente, o tempo da descoberta , entre outros,do Glauber Rocha,da Terra em Transe, do Dragão da Maldade e do António das Mortes "matador de cangaceiros". É, sobretudo, nos anos finais dos anos 60 e anos 70, que duas culturas, que à sua maneira resistiam ambas a sistemas antidemocráticos, começam a dialogar de uma forma diferente, na cumplicidade dos mais jovens. Mais ou menos intelectual, mais ou menos clandestina, as trocas faziam-se, literatura, música, ideias, experiências.Troquei Chico Buarque por Zeca Afonso, Secos e Molhados por José Mário Branco (continuo a pensar que ficaram eles a ganhar).
A assimetria política entre Portugal e o Brasil, pós 74, mais não fez que permeabilizar a aprofundar o diálogo intercultural. E que, pouco a pouco, se foi banalizando.

2. Também li a notícia do "Público" e desconheço o volume do que é "pirateado" (eu gosto mais da expressão "furto formigueiro", mas as juristas cá de casa dizem-me que não é totalmente adequada).
Mas é, para mim, natural que 30 anos decorridos,anos de progressiva nivelação por baixo da cultura do Brasil, da primazia do futebol, das férias ao preço da chuva, do império das "play-lists",da enfâse, por vezes sem fundamentos, colocada em triângulos e outras figuras da geometria cultural, nos adormeçam perante o melhor que o Brasil nos tem a dar. E que o interesse se veja reduzido.
É óbvio,ainda em meu entender, que a divulgação cultural é, em ambas as direcções, mutuamente canhestra.
Acho que, mais do que nunca, Portugal e Brasil se desconhecem.
Ou sequer se conhecem.

Karl Kraus


Retrato de Karl Kraus, 1925, Oskar Kokoschka

Karl Kraus morreu em 1936. E, por vezes, o final tem pouco de heróico, Isabel. A não ser que na clarividência da amargura e da derrota restem uns fiapos de heroicidade. Deixo o Roberto Calasso concluir: « Nas suas explorações que durararam perto de quarenta anos, Kraus já tinha descoberto o que aconteceria até aos nossos dias, mas não quiz ser também testemunha do nazismo.(...) foi o primeiro a reconhecer que se encontrava numa época que esvazia a noção discursiva e teatral de Adversário, estendendo-a a tudo, dissipando-a em névoa, tornando qualquer um facilmente inimigo de si mesmo.(...) não é este o local apropriado para aludir à tragédia dos últimos anos de Kraus. É uma porta secreta acerca do qual ele próprio escreveu:»quando o mundo acabar, quero retirar-me para a vida privada»(...).O significado político dessas páginas (Die Sprache)resume-se em poucas palavras: "Se a humanidade não tivesse frases feitas, não precisaria de armas"».


Roberto Calasso, Quarenta e nove Degraus, 50-52.

Ao som de algo mais

Dizia um artigo do «Público», um destes dias, que os portugueses consomem cada vez menos música brasileira. Não podia estar mais em desacordo. Nos anos de 1970, na nossa Lisboa, pouco mais do que os meus pais ouviam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, Taiguara, Milton Nascimento, Secos & Molhados, Simone Bettencourt de Oliveira, Chico Buarque, etc. Trinta anos depois a música brasileira imperou em Portugal. Zeca Pagodinho, Grupo Revelação, Banda Eva, Zélia Duncan, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, etc., são tão ou mais ouvidos quanto Rui Veloso, Luís Represas, João Pedro Pais, e por aí fora.

As afirmações contidas no «Público» resultam da análise aos índices de vendas das discotecas nacionais. Isso seria um indicador verosímil se não tivessemos de levar em conta uma informação essencial: cópias piratas e downloads ilegais. De norte a sul do país, da maior cidade à mais pequena aldeia, onde haja um imigrante brasileiro ou um português com gosto musical diversificado, é possível ouvir música brasileira.
[imagem daqui]

Mias um caso para o vórtice de casos políticos e judiciais particularmente opacos.

Mais um caso que "a confirmar-se" irá ter consequências políticas e judiciais, dizem. Ou não terá? Ou ficará arquivado? Ou andará anos em tribunais? Ou fica respondido com os interesses pragmáticos da época? Ou? Ou? Tanta falta de valores em que claramente nos reconheçamos como cidadãos, e que assumamos como invioláveis na vida democrática: liberdade de imprensa, será? Respeito pelos direitos e garantias de cidadãos, será? Mais uma vez, a direita e a esquerda que nos representou a ficarem igualmente mal na fotografia. Não é por medo, penso eu, do tio da América. É por falta de convicções firmes, o que nos faz sempre mais condescendentes. É assim.



Fernando, o que aconteceu a Karl Kraus, conta-me lá?

quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

Quase uma resposta, ou de como o altar da opinião é o lugar-comum

Perguntas, Isabel, "que notícia é esta...." e sinto-me tentado a "responder" com uma remissão ao ensaio Da Opinião, de Roberto Calasso (Os quarenta e nove degraus, Livros Cotovia).
Apesar da linha definidora do conjunto de ensaios (note-se que a edição portuguesa não publica uma parte substancial) remeter para um plano de interpretação ao qual sou alheio, interessam-me as páginas, fortíssimas, que Calasso consagra à opinião, enquanto algo que oculta o pensamento, que “come o pensamento”. E aqui o autor tem um destinatário específico que é a imprensa. Trata-se do contexto em que a imprensa produzida nos espaços de debate se tornou, produção de opinião em si mesma.
Cito Calasso: «outrora, os filósofos costumavam partir da evidência que agora desapareceu (….) a opinião ficou a descoberto como o último alicerce, ocultando multidões de vermes, algumas iguanas e poucas e velhas serpentes (…) Porque a opinião é acima de tudo um poder formal, um virtuosismo que aumenta constantemente que ataca todos os materiais. A opinião troça de nós ao aceitar qualquer sentido, o que nos impede de a reconhecer pelas teses que apresenta (…) engole o pensamento e reprodu-lo em termos idênticos, apenas com ligeiras variantes» (27-28).
Interessa-me, por isso, o modo em que a opinião come o pensamento, manipula a liberdade de análise e de expressão e curto circuita todo o trabalho de elaboração racional e colectiva, reservado, a uma nova classe especializada: a dos profissionais da opinião.
Que tem isto a ver com o ensaio e com o seu título roubado e com a questão que colocas?
Nada.
Mas, se calhar nada, a partir do momento em que a liberdade de expressão não se veja intoxicada no altar da opinião, pela introdução de faits-divers deste tipo que em nada contribuem para a postura critica e construtiva que exige o exercício daq cidadania. Roberto Calasso cita, em epígrafe, Karl Kraus impiedoso crítico deste fenómeno, a quem consagra o ensaio Da Opinião e que escreveu, em 1921, “no princípio era a Imprensa / e depois apareceu o mundo”.
Depois teve o final de carreira e de vida que sabemos.

Mas que notícia é esta?!! Onde está o interesse público da notícia, que eu não vejo?!

Ex-namorada de Durão Barroso é investigadora do caso Freeport

terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

E agora Ahmadinejad?

O Presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad sempre encontrou a sua fonte de legitimidade de poder nos discursos ideológicos anti-americanos e anti-israelistas, refugiando-se no imperialismo americano que condiciona o desenvolvimento natural dos povos, por seus próprios meios. O radicalismo islâmico imperou como moeda de troca contra esse imperialismo. Com uma nova administração na Casa Branca, que cedo afirmou a importância da via do diálogo diplomático, Ahmadinejad terá de repensar os seus discursos. De onde lhe virá a legitimidade? Terá coragem seguir a via democrática?

Injectar Soluções.

A crise está a deixar o ordenamento global expectante. As contas serão feitas consoante a capacidade de resposta estratégica e os factores de poder que nascerão daí. Positivamente, a crise possibilita a fabricação de modelos de resposta conjugados, pulando anteriores barreiras e adentrando num sistema partilhado e agregador de soluções. A busca por soluções democráticas e globais significa a consciência dos resultados nefastos das soluções imediatas da clausura ditatorial. Apesar do reordenamento latente, a dependência colateral dos EUA continua vigente. Olhamos com atenção para as medidas americanas de relançamento da economia, esperando o efeito de bola de neve.

Para ler, de pé

Está bem... façamos de conta, por Mário Crespo

segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

Engraxadores de Braga a Évora (entremez)

Mas, com pomada nos riscos e tinta na esfoladela
(a bota estava cambada, as solas metiam ar),
com cuspo no preparado e uma boa engraxadela,
lá fiz o melhor que pude. Deixei a bota a brilhar ?

Tó dos Repentes

Engraxadores de Braga a Évora.

Marcelo Rebelo de Sousa afirma que a estratégia de Manuela Ferreira Leite estará a levar o partido para um "ponto sem retorno". Os presidentes das distritais de Braga e de Évora do PSD vieram a correr em auxílio de MFL, defendo que as declarações de MRS não abonam a favor do partido. Esquecem claro que Rebelo de Sousa é um comentador independente e, mais, que Ferreira Leite não necessita de ajuda, ela própria enterra o partido sozinha.

Facilitismo da Oposição.

Manuela Ferreira Leite como oposição continua apresentar soluções para todos os problemas do país. Enquanto dirigente foi um flop. As ideias até podem ser boas, em alguns casos, mas a comunicante é que não será a melhor. Façam o que eu digo e não o que eu faço? Humm....

Se nem os manuais se entendem entre si!

"Defesa socrática segue os manuais?! in JN


..
Fernando Mouro, fizeste uma excelente aprsentação do que se passou/passa em relação ao "famoso" ataque às ditas malévolas corporações: juízes, médicos e professores. Eu diria a famosa defesa do poder executivo logo no seu discurso inaugural (de tão triste memória).
..
Como escreveu uma colega em carta aberta aos deputados:
"(...)

Como é possível vir apelar-se à união dos Portugueses em torno de um objectivo comum, quando aquilo que se fez foi virá-los uns contra os outros.
E, que causa comum?:- o combate às desigualdades sociais? – Não!;- o combate ao fosso crescente entre os mais ricos e um número crescente de pobres? – Não!- o combate ao empobrecimento da classe média com as consequências conhecidas ao nível da própria actividade económica? – Não!- o combate à corrupção, aos clientelismos e à falta de transparência? - Não!;- o combate ao desemprego e encerramento de pequenas e médias empresas que, de resto, não são apenas de agora? – Não!;- o combate para serviços de saúde capazes de prestar assistência de qualidade, em tempo oportuno e em condições de dignidade aos portugueses? – Não!;- o combate para uma Justiça eficaz, célere, acessível à generalidade dos cidadãos e consequentemente justa? – Não!- o combate a tantas Imoralidades existentes neste país de escassa riqueza? – Não!- …
O combate central da Política do Governo e, ao que parece, o problema fulcral da Nação é … a Avaliação dos Professores.
(...)
A manutenção dos grandes privilégios da classe profissional", insustentável quando comparada com as outras, foi o argumento que vos satisfez. Pois bem, atrever-me-ia a sugerir-vos uma troca: que, durante um ano, viésseis beneficiar dos meus imensos privilégios e grandes benesses.
"Corporativismo e instrumentalização" foram as palavras que bastaram: a uns para se considerarem donos da razão e a outros para tudo sustentar. (...)".

Domesticados, pois então.

Magistrados condenam interferência do Governo na investigação do Freeport - Sindicato diz que há um "clima de intimidação" e que só se atribuem meios de investigação a casos "que interessa ao poder resolver" (http://jornal.publico.clix.pt/ em 8/02/09)

1. Começa a dizer-se em público o que há muito tempo era apenas sussurrado e intuído: o poder teme o que não controla e o que tem por obrigação ser isento e incorruptível. E esse temor fez-se sentir desde o princípio da legislatura nos rostos da justiça, da educação e da saúde. Como tal, havia que silenciá-los e submetê-los e controlá-los.
A estratégia de controlo destes sectores pautou-se por uma simplicidade totalmente eficaz:
a) em primeiro lugar, procedendo-se à manipulação da opinião pública contra os seus corpos profissionais , manipulação tanto mais eficaz porquanto veiculava a mensagem que , em pleno século XXI, os portugueses se encontrariam reféns de classes profissionais cujos estatuto, proventos e privilégios se situariam a montante da sua eficácia produtiva.
b)em segundo lugar, criando, de rompante , um corpus legislativo no qual a coberto da introdução de inovações legais, se instituíam mecanismos de controlo e domesticação de juízes, profissionais da saúde e professores.

2.Melhoraram estes sectores? Não.
Mas, por agora, falemos apenas da justiça, porque a esta se refere o artigo citado. A justiça continua a ser um dos grandes temas de discussão e a ela são assacados as grandes responsabilidades da impunidade de actuação dos responsáveis pela criminalidade em Portugal. Num estado cada vez mais judicializado, no qual o diálogo, a moderação, a intermediação construtiva se vê substituída pelo recurso aos tribunais, é notória a preocupação em evitar a intervenção do poder judicial, enquanto forma de garantir o exercício isento e transparente do poder democrático.
É fácil, no que toca à justiça, manipular a opinião pública, porque estão, normalmente, em jogo sentimentos pessoalizados, que se objectivam em representações colectivas.
(...)
Na justiça os grandes processos nasceram, cresceram e morreram nos meios de comunicação. Refiro-me a casos, por exemplo, como os do “sangue contaminado”, “Casa Pia”, facturação falsa”, escolhidos a esmo. A impunidade de quem, alegadamente, praticou actos ilícitos não foi sequer beliscada. Por ter sido provada a sua inocência? Não. Na sua quase totalidade, pelo recurso a expedientes de carácter técnico-jurídico, pelo jogo temporal das prescrições, por actos que, aos leigos na matéria, passam despercebidos.

3.Sejamos claros, aos juízes está vedado, por força das normas em vigor e pelo excesso de garantismo que decorre do “politicamente correcto”, o exercício autónomo do seu poder de soberania. Não são mais que meros executores da administração pública, cujo dever de prestação de contas perante a sociedade civil tem vindo a ser substancialmente agravado.
Se deve constituir reivindicação de cidadania exigir ao Estado a prestação e responsabilização dos actos praticados, deve constituir uma luta, igualmente importante, a democratização da informação e de fiscalização dos seus conteúdos, numa perspectiva de pluralismo, isenção e independência. É nesta última exigência que se deve exigir que aos órgãos, aos quais está cometida esta tarefa, sejam atribuídas todas as condições para o exercício das suas funções, ao arrepio de quaisquer formas de pressão ou de intimidação

sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

E alguma vez souberam o que fazer?

O CLUBE DO CAPITÃO SMITH, Ferreira Fernandes

"Basílio Horta, presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), disse, ontem: "É uma crise gravíssima (...) que está a gerar uma angústia profunda, porque não sabemos o que havemos de fazer mais." Mais um que aderiu ao "Clube do Capitão Edward J. Smith". Naquele célebre dia, o capitão Edward J. Smith também não foi de grande valia para quem olhou para ele e dele só recebeu "uma angústia profunda." Com uma vantagem do capitão: ao menos ele foi ao fundo mais o seu Titanic. E não é certo que quem conduziu este barco, ao longo destes anos todos, vá ao fundo com ele. Não me apetece ouvir mais ninguém a dizer: "Não sabemos o que havemos de fazer mais." Suspeito, até, que já fizeram o suficiente. Ontem, Anatole Kaletsky, o principal colunista económico do Times de Londres fez um longo e sábio artigo sobre esta tristeza toda. Percebi tudo na legenda: "A Economia está onde estava a Astronomia antes da chegada de Copérnico." Pois é, já leio o jornal com um olho e com o outro procuro o salva-vidas... Ao menos, dêem--me música. Olha, até já entendi a função da orquestra do Titanic." in DN


"A crise. Ainda a crise. Sempre a crise. E sempre a tal oportunidade retórica...
Para muitos que confiavam no homem de Davos, o tal "mamífero mais evoluído do planeta", como lhe chamou o deputado conservador britânico Michael Gove, a decepção não podia ser maior. O Forum de Davos, que anualmente reúne nas montanhas suíças as elites políticas, empresariais e dos media, fez prova da profunda decadência e desorientação que atravessam o nosso mundo. Os relatos confirmam que não faltou aparato, muita festa e guarda-costas. O habitual. Só que desta vez não havia nada para celebrar. Apenas embaraço e dúvida. A tentação da metáfora da Montanha Mágica contagiou os cronistas: o Forum qual sanatório de Davos. Decadência à espera de cura. Enquanto alguns economistas sublinhavam o advérbio "honestamente" para confessarem nada saber sobre o que nos espera, o número dois do FMI, John Lipsky, afirmava uma certeza: "É seguro que as próximas notícias vão ser piores." Esclarecidos. Desgraçadamente, como no mito de Sísifo, estamos ainda na fase em que a pedra continua a rolar montanha abaixo. (...)"
"Guardar o pessimismo para dias melhores" de António José Teixeira in DE

Contra as práticas totalitárias, a política da virtude

1. Chego à conclusão que a minha dificuldade em abandonar a tendência de um registo mais teórico e “programático” docorre do modo como entendo a política, nem sempre consentâneo com a sua reificação no exercício quotidiano do poder.
Como cidadão é-me dado exigir da parte dos que me representam e detêm a responsbilidade de gerirem o espaço multi-modal em que me insiro -a res publica- que se norteiem, exclusivamente, pela noção de serviço público. Tal consiste em colocar a totalidade das qualidades e das competências, que presidiram à sua escolha , ao serviço integral de toda a comunidade , e não apenas da parcela que os escolheu, em detrimento de interesses pesoais ou de grupo.
Apercebo-me que a separação dos poderes, o espaço público, a participação activa na vida pública, a subordinação às exigências do bem comum, a liberdade de expressão, em suma o exercício da democracia , sempre que em mãos menos isentas, terminam prisioneiras da tendência em substituir o exercício da política pelo exercício voluntarista da governação e da administração. O efeito acaba por ser perverso: a política quase que se reduz a técnicas de justificação e manutenção do poder, a liberdade de escolha e de expressão perspectiva-se como esquema comando-obediência.

2. Se um primeiro ministro, seja ele qual for, faz da crispação, da arrogância, do autismo, do dividir para reinar, suportes para a acção governativa, tem nos ministros trauliteiros os companheiros de viagem que merece.
Afinal, o sr. Joãozinho das Perdizes era sempre acompanhado pelo Cosme, o seu inefável factotum.

Ainda bem que há quem o diga alto: este discurso deve tudo a práticas totalitárias.

"Eu (Ministro Santos Siva) cá gosto é de malhar na direita e gosto de malhar com especial prazer nesses sujeitos e sujeitas que se situam de facto à direita do PS. São das forças mais conservadoras e reaccionárias que eu conheço e que gostam de se dizer de esquerda plebeia ou chique". "Um discurso estalinista", considerou Manuel Alegre." Público
..
Isto não é um discurso para uma democracia, isto não é um político de uma democracia, isto não é um ministro de um governo que se quer democrático, isto é o estilo trauliteiro de quem sonhou um dia com regimes de pensamento único como forma de transformar o mundo.

quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

Um partido ou um gangue?

"Edmundo Pedro: há quem não se pronuncie no PS porque tem medo
O histórico do PS Edmundo Pedro afirmou ontem numa reunião socialista na sede do partido, no Largo do Rato, em Lisboa, que dentro do PS há quem não se pronuncie sobre a vida interna do partido porque tem medo."

http://static.publico.clix.pt/docs/politica/epedropsmedo5.mp3

Diálogo ou Fundamentalismo?





1.Dietrich Bonhoeffer, teólogo e pastor em St-Matthäus-Kirche, em Berlim, foi executado a escassos meses do fim da 2ª Guerra Mundial, sob a acusação de participação no atentado falhado contra Adolph Hitler. Personagem controversa, dadas as interpretações divergentes que se fazem da sua figura, desde “santo protestante” e “pacifista” para uns, a “teórico da guerra justa” e até “terrorista” para outros, deixou páginas que ocupam um lugar legítimo quando se discute (cito e concordo com o João) : « obviamente que nem todas as religiões estão preparadas para lidar com a democracia e a pluralidade, ainda para mais quando falamos de religiões que imperaram tiranicamente durante séculos».


2. Cito Bonhoeffer :« a Igreja confessa ter abusado do nome de Jesus Cristo, porquanto se envergonhou d’Ele diante do mundo e não se opôs com vigor ao seu abuso para fins iníquos. Ficou a olhar quando sob a cobertura do nome de Cristo se praticaram violências e injustiças. Permitiu até, sem protestar, que se escarnecesse abertamente do mais santo dos nomes, encorajando assim a fazê-lo. (…) Nem todas as feridas causadas podem ser curadas, mas é essencial que outras se não venham a abrir.( …) Pressuposto deste perdão intra-histórico é que a culpa seja sarada, porquanto da violência surgiu o direito, da arbitrariedade a ordem, da guerra a paz. Onde tal não acontece, onde a injustiça persiste sem interrupção a infligir novas feridas, não se pode claro está, falar de semelhante perdão; deve antes pensar-se, em primeiro lugar, em resistir à injustiça e em convencer os culpados do seu delito.»

Ética, ( 105-111)

quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

Espaço Público Religioso


Os fundamentalismos são como seitas de uma religião e são tanto mais perigosos quanto maior reprodução social tiver essa religião. Enquanto a Oriente se aponta o Islamismo a Ocidente é o Cristianismo. A Igreja, claro, tem sido um grande motor da difusão das intolerâncias religiosas ou tolerâncias q.b. A exploração do espaço público para fins religiosos têm tanto de legítimo quanto a exploração do mesmo para fins laicos. No espaço público devem conviver as manifestações de fé - todas as fés - e as manifestações ateias. Afirmar publicamente a inexistência de Deus é tão verdadeiro e legítimo como afirmar a sua existência. Obviamente que nem todas as religiões estão preparadas para lidar com a democracia e a pluralidade, ainda para mais quando falamos de religiões que imperaram tiranicamente durante séculos.

Deus e ateísmo, um debate aberto

O professor Vital Moreira refere, hoje, num post intitulado “intolerância religiosa” (Causa Nossa) a condenação da igreja católica espanhola à campanha publiciária de associções ateias, a qual consiste na colocação de cartazes, colocado nos transportes públicos, com a mensagem “ provavelmente Deus não existe".


A este respeito,Juan José Tamayo director de la Cátedra de Teología y Ciencias de las Religiones de la Universidad Carlos III de Madrid, numa crónica publicada em El País ( Dios y ateísmo: un debate abierto · ELPAÍS.com), não deixa de considerar surpreendente a desproporção entre o tom respeitoso da campanha e as gravíssimas acusações dos bispos espanhóis, tecendo a partir destas algumas considerações, das quais retenho as seguintes (itálicos meus):

«1. La campaña de los ateos es una respuesta a los fundamentalismos religiosos instalados con frecuencia en las cúpulas de las religiones, que se muestran agresivos con la increencia en sus distintas manifestaciones: ateísmo, agnosticismo e indiferencia religiosa. Los fundamentalistas llegan a afirmar que el hombre sin Dios es como un animal que pace y que Dios es el único fundamento de los derechos humanos. Reclaman el protagonismo de las religiones en la esfera pública, pretenden imponer la moral religiosa -en España, la cristiana- a toda la ciudadanía, no respetan la autonomía de las realidades temporales y ocupan los espacios públicos para deslegitimar la democracia. Condenan asimismo la teoría científica de la evolución y defienden como ciencia el mito de la creación y la teoría del diseño inteligente.
2. Creyentes y no creyentes están en su derecho a expresar libremente sus ideas. Se trata de un derecho humano fundamental e inalienable. La Constitución Española garantiza la libertad ideológica, religiosa y de culto de los individuos y las comunidades sin más limitación, en sus manifestaciones, que el mantenimiento del orden público. Y, ciertamente, estas campañas en nada alteran el orden público. Son, más bien, un ejemplo del pluralismo ideológico y religioso, un ejercicio de la libertad de expresión, una muestra de respeto hacia todas las creencias e ideologías y un signo de madurez de los ciudadanos españoles....»

Parafraseando o professor Vital Moreira : o espaço público é,por definição, dsessacralizado.

Como se criam falsos problemas e como eles são bem vetados

"No texto, Cavaco é muito claro: o fim do voto por correspondência dos portugueses que vivem no estrangeiro "iria promover a abstenção eleitoral, como foi salientado pelo Conselho Permanente das Comunidades Portuguesas, que chamou a atenção para as dificuldades inerentes ao exercício do voto presencial". Resultado: "Obrigaria milhares de pessoas a percorrerem centenas ou milhares de quilómetros para exercerem um direito fundamental."
(...) Em mais de três décadas de democracia, alegou Cavaco, não houve "situações de fraude nem foram verificados ilícitos eleitorais praticados através do voto por correspondência". E, além disso, os resultados nos círculos da emigração "nunca foram contestados", como "nunca foi contestada a constitucionalidade do voto por correspondência nas eleições para a Assembleia da República", lê-se no comunicado. "

terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

Johanna Sigurdardottir


Johanna Sigurdardottir, é um nome que anda nas bocas do mundo tocando - embora ao de leve - no insólito que tem constituído Barack Obama. Os media têm criado um autêntico circo em torno da nova primeira-ministra islandesa, não tanto por ser mulher mas por ser assumidamente lésbica. Sabendo que o noticioso se faz do insólito e que este é alvo de uma exploração até ao tutano, a homossexualidade da primeira-ministra tem um sabor intenso para os media ocidentais. Isto significa que em termos gerais o diferente continua a ser uma medida comparativa. A homossexualidade de Jóhanna Sigurðardóttir interessa muito pouco para o desenvolvimento das suas funções mas interessa basta como medida de abertura na sociedade islandesa. O futuro parece ser o da liberalização das tendências sexuais e a dissolução das diferenças como antítese de identidade. Mas do parecer ao ser vai um fosso que importa transpor. Os tempos de crise (como este) costumam influenciar os ritmos de abertura, quando o cidadão procura um culpado para o desemprego e se fecha nos nacionalismos anti-imigrantes.

Ufa, respirar de novo

Valter Lemos acabou com a suspeição levantada pela Fenprof de que os professores no activos poderiam ser substituídos por voluntários reformados, ao abrigo de um programa de maximização do sistema de ensino. Importa claro demarcar as fronteiras entre o espaço dos professores no activo e as funções asseguradas pelos voluntários. Todavia, é fundamental que os voluntários sejam reembolsados por quaisquer tipos de benefícios, a fim de potencialiar o projecto.

segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

O Diálogo é Monopólio

A promoção do diálogo entre classes ou entre povos tem muito que se lhe diga. A ilusão da paridade cai facilmente quando se olha de fora e se encontram explícitos monopólios e segregações inconscientes e premeditadas. Obviamente que o diálogo é o maior método de crescimento conjugado, uma vez que vai reforçando os laços, mesmo que ténues, entre identidades. Todavia, importa tomar consciência das falhas e falácias contidas neste processo. Quer se queria quer não, o diálogo é monopolizado e reforça muitas vezes as estruturas de dominação. Quando se limita o diálogo intercultural e inter-religioso aos grupos culturais e religiosos que o Ocidente considera legítimo, sonegando as identidades culturais e religiosas pagãs, isso tem muito pouco de abertura ao diálogo e de paridade cultural, serve pois para reforçar as tais estruturas de poder e isso é tanto mais grave quanto for camuflado por uma forte ilusão de globalização do diálogo.