1. Existia, e bem calhando ainda existe, o campeonato nacional de braço de ferro. Patrocinado por um qualquer ginásio e transmitido em reportagem única, por um qualquer canal de televisão, colocava frente e frente homens ou mulheres, demasiado musculados, braço com braço, num puxa-que-empurra, empurra-que-puxa, tão entediante quanto gratuito. Outra coisa não seria de esperar, quando se encontram em causa duas forças que teimam em se pedir meças. Como nas chegas dos bois transmontanos, que ensarilham os cornos e se empurram mutuamente até que um deles, o que se apercebe da derrota eminente, fuja, para opróbrio da aldeia que o alimentou.
A um simples jogo de braço de ferro ou a uma chega de bois nada mais se exige se não o primado da força e da teimosia: premeia-se a força bruta não inteligente, a cegueira do gesto infinitamente repetido.
Quem ganhará o braço de ferro entre o Ministério da Educação e os professores? Obviamente quem tiver mais força, quem obrigar o outro a esgueirar-se pela saída mais próxima, mantendo os últimos resquícios de dignidade que lhe forem possíveis. Mas, ganhe quem ganhe, esta será sempre uma vitória de Pirro, uma vitória em que nunca se irá saber, ao certo, quem venceu e foi vencido.
Porque é de educação que estou a falar. Porque é no interior da vozearia, no jogo da arrogância ensurdecida que a clarividência se perde e se passa, mais uma vez, ao lado das questões fundamentais da educação.
Que se tornam claras quando, contas feitas, vemos o que vai faltando.
2. Falta à tutela o interesse em ouvir, em avaliar o que foi feito de bom em mais de um quarto de século de actividade diária nas escolas. Talvez perceber que as causas que hoje agita como suas, as da “integração das minorias étnicas e culturais”, da “intervenção crítica dos pais e encarregados de educação”, ou a “procura da excelência” ou “a prevenção do abandono e insucessos escolares”, correspondem a diagnósticos de há muito forjados na prática quotidiana das escolas, que se travestem, repetidamente, em intervenções voluntaristas, ao sabor das ânsias reformadoras de sucessivos governos.
Exige-se à tutela o bom senso para ajudar a travar o processo de degradação da classe docente, deixando de a considerar como uma mercadoria, funcionalmente desvalorizada, que serve as necessidades do mercado e se pode perder, com vantagem, na troca com os outros sectores sociais. E, também, descobrir que não é a economia que determina a educação, mas que é a educação a verdadeira condição de possibilidade da economia e que tal só será viável num quadro alargado de autonomia das escolas.
Pede-se à classe docente, por outro lado, que não venha a perder o sentido da equidistância entre o exercício da profissão e avaliação crítica da mesma, a distanciação crítica que possibilita avaliar e consolidar a escola como uma instituição auto-aprendente e auto-reguladora; e que reforce, no poder de intervenção, as capacidades da auto-aprendizagem e de evolução constantes, que lhes permitam enfrentar as tentativas de degradação do ensino e da educação, sem reduzir o poder reivindicativo a questões de natureza laboral ou de progressão na carreira, que embora necessárias não são suficientes.
Cabe aos pais e encarregados de educação compreender a escola como espaço público de transmissão de saberes e de desenvolvimento de competências e não como espaço de transição entre níveis de ensino ou espaço de substituição de carências familiares; e transmitir aos seus educandos essa noção de escola, contribuindo para consolidar a imagem do professor como aquele que ensina, disciplina e forma.
3. Exige-se à esquerda, a que existe ou a que resta ou, optimisticamente falando, a que está aí para vir, a capacidade de ir além dos debates paroquiais do imediato e do casuístico (reitera-se, necessários mas não suficientes), e compreender o alcance da pergunta de um pedagogo dos anos 70, quando solicitado para construir as bases de um sistema educativo de um país em vias desenvolvimento:
- E que tipo de Homem pretendem os senhores?