domingo, 30 de Novembro de 2008

Momentos decisivos

Se acreditasse nas estrelas ( o que não seria um elemento novo na política portuguesa) diria que teria havido uma convergência de elementos que reforçam a necessidade de aqueles que se sentem próximos das esquerdas estarem atentos. Desde logo, houve um Partido Socialista que assumiu um "movimento reformista" que se traduziu na sua localização à direita do seu eleitorado e do seus posicionamentos históricos nos domínios dos direitos sociais, da concepção do Estado e do papel estratégico das funções sociais do mesmo, a saber Educação e Saúde. Desta alteração (estrutural ou conjuntural, não estou bem seguro) resultou uma certa movimentação nos sectores que oscilam entre este partido e as forças à sua esquerda. Surgiram movimentos de cidadãos, candidaturas independentes e inclusivamente a hipótese (que, por enquanto, é apenas isso) de alguma forma de realinhamento das forças partidárias. Em segundo lugar, deu-se uma crise económica que pôs em causa algumas das premissas económicas em que assentavam a revolução reaganiana e, consequente, o surgimento da terceira via, como forma de engajamento da social-democracia na hegemonia liberal da última década: tal significou uma decisiva machadada no "pensamento único" que em idos esclarecidos Mário Soares identificou.
Em terceiro lugar, a potência hegemónica originou alguns movimentos novos que são consequência indirecta de uma eleição que trouxe consigo rupturas que ultrapassam as metas estratégicas dos seus promotores.
Trata-se de uma equação interessante: saber se se traduzirá em algo de efectivo é algo sobre o qual as estrelas nada nos dizem. As mudanças sociais e culturais dependem dos homens e a estes compete fazer o jogo e assumir o lugar que desejam enquanto protagonistas da sua história. Sabendo que em todos os momentos históricos, há catalizadores, protagonistas e simples participantes muito gostaria de saber (e com certeza, muitos outros comigo) em que anda pensando Manuel Alegre.

quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

O Campeonato Nacional de Braço de Ferro

1. Existia, e bem calhando ainda existe, o campeonato nacional de braço de ferro. Patrocinado por um qualquer ginásio e transmitido em reportagem única, por um qualquer canal de televisão, colocava frente e frente homens ou mulheres, demasiado musculados, braço com braço, num puxa-que-empurra, empurra-que-puxa, tão entediante quanto gratuito. Outra coisa não seria de esperar, quando se encontram em causa duas forças que teimam em se pedir meças. Como nas chegas dos bois transmontanos, que ensarilham os cornos e se empurram mutuamente até que um deles, o que se apercebe da derrota eminente, fuja, para opróbrio da aldeia que o alimentou.
A um simples jogo de braço de ferro ou a uma chega de bois nada mais se exige se não o primado da força e da teimosia: premeia-se a força bruta não inteligente, a cegueira do gesto infinitamente repetido.
Quem ganhará o braço de ferro entre o Ministério da Educação e os professores? Obviamente quem tiver mais força, quem obrigar o outro a esgueirar-se pela saída mais próxima, mantendo os últimos resquícios de dignidade que lhe forem possíveis. Mas, ganhe quem ganhe, esta será sempre uma vitória de Pirro, uma vitória em que nunca se irá saber, ao certo, quem venceu e foi vencido.
Porque é de educação que estou a falar. Porque é no interior da vozearia, no jogo da arrogância ensurdecida que a clarividência se perde e se passa, mais uma vez, ao lado das questões fundamentais da educação.
Que se tornam claras quando, contas feitas, vemos o que vai faltando.

2. Falta à tutela o interesse em ouvir, em avaliar o que foi feito de bom em mais de um quarto de século de actividade diária nas escolas. Talvez perceber que as causas que hoje agita como suas, as da “integração das minorias étnicas e culturais”, da “intervenção crítica dos pais e encarregados de educação”, ou a “procura da excelência” ou “a prevenção do abandono e insucessos escolares”, correspondem a diagnósticos de há muito forjados na prática quotidiana das escolas, que se travestem, repetidamente, em intervenções voluntaristas, ao sabor das ânsias reformadoras de sucessivos governos.
Exige-se à tutela o bom senso para ajudar a travar o processo de degradação da classe docente, deixando de a considerar como uma mercadoria, funcionalmente desvalorizada, que serve as necessidades do mercado e se pode perder, com vantagem, na troca com os outros sectores sociais. E, também, descobrir que não é a economia que determina a educação, mas que é a educação a verdadeira condição de possibilidade da economia e que tal só será viável num quadro alargado de autonomia das escolas.
Pede-se à classe docente, por outro lado, que não venha a perder o sentido da equidistância entre o exercício da profissão e avaliação crítica da mesma, a distanciação crítica que possibilita avaliar e consolidar a escola como uma instituição auto-aprendente e auto-reguladora; e que reforce, no poder de intervenção, as capacidades da auto-aprendizagem e de evolução constantes, que lhes permitam enfrentar as tentativas de degradação do ensino e da educação, sem reduzir o poder reivindicativo a questões de natureza laboral ou de progressão na carreira, que embora necessárias não são suficientes.
Cabe aos pais e encarregados de educação compreender a escola como espaço público de transmissão de saberes e de desenvolvimento de competências e não como espaço de transição entre níveis de ensino ou espaço de substituição de carências familiares; e transmitir aos seus educandos essa noção de escola, contribuindo para consolidar a imagem do professor como aquele que ensina, disciplina e forma.

3. Exige-se à esquerda, a que existe ou a que resta ou, optimisticamente falando, a que está aí para vir, a capacidade de ir além dos debates paroquiais do imediato e do casuístico (reitera-se, necessários mas não suficientes), e compreender o alcance da pergunta de um pedagogo dos anos 70, quando solicitado para construir as bases de um sistema educativo de um país em vias desenvolvimento:
- E que tipo de Homem pretendem os senhores?

domingo, 23 de Novembro de 2008

DOIS POSTAIS DO PORTO


1. Só pelas 19,30 é que terei de estar em Campanhã, para recolher uns trânsfugas que foram de fim de semana a Braga. Tenho um Andante e uma cidade, hoje cheia de luz, sol e algum calor, só para mim.
Devo dizer que o Porto das férias da minha infância e da adolescência não é o Porto nobilitado da Agustina ou do Manoel de Oliveira, do Majestic ou do ContagiArte, o Porto Histórico ou o das Pontes, mas o dos primos e das correrias dos Clérigos aos Lóios e aos Mártires da Pátria, com descida assegurada todos os dias, via Taipas ou S. Bento, aos cais da Estiva e da Ribeira, e até onde mais as pernas (e a pendura nos eléctricos) nos pudessem levar. Mais tarde, ele será o Piolho e será a Lello, serão os colegas do norte, os livros em comum.
Andante!
Por agora, estou em Serralves, na retrospectiva de Juan Muñoz; As figuras, de olhos cegos, retorcidas e ensimesmadas, os confrontos com a luz e com as sombras, os segredos sussurrados a uma parede, comprometem-me a procurar em casa a transcrição correcta de um poema de Longfellow, que teima em me acompanhar desde a sala 2:
«….A voice out of the silence of the deep,
A sound mysteriously multiplied
As of a cataract from the mountain's side,
Or roar of winds upon a wooded steep.
So comes to us at times, from the unknown
And inaccessible solitudes of being …»


2. No espaço ao lado, as janelas abertas ao parque, inaugurados ontem os últimos trabalhos de Christopher Wool, pinturas e serigrafias, abstracção suja e crua.
Numa época em que da pintura se diz estar morta e enterrada, a pintura de Wool pretende assumir-se como um acto de superação dos impasses em que, alegadamente, terá caído a arte das últimas décadas.
Um quadro monumental, sem título, tinta de esmalte sobre alumínio e um diálogo, com a pronúncia do Porto: «se fosses o autor, porquanto mo vendias? – 52 euros. – Tanto? – Ora, o menino paga a tinta, que é de esmalte, e paga a placa que é de alumínio».
Vou-me rir, discretamente encostado a uma das tais janelas que dão para os jardins.
Ainda sorrio, já vou na rua de Monchique ali à Alfandega Nova e já se iluminaram as luzes de Gaia, quando me lembro do diálogo e do ar ultrajado de uma senhora, que sobraçava inúmeros catálogos e, aproximadamente há vinte minutos, lia o quadro de todos os ângulos possíveis. «Pois é, a arte contemporânea tem que se lhe diga», comentou-lhe a elegante senhora idosa que a acompanhava. «Ignorantes», responsou a primeira.
Ignorantes, ou interrogantes de hipotéticos equívocos na arte contemporânea? Mas não me atrevi a verbalizar a questão.
Não fora levar com os catálogos na cabeça.

quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

A SINISTRA

Que mistério ensombra a face da Ministra da Educação? Os olhos desconfiados e um ligeiro rito de crispação na comissura dos lábios, bem como o queixo voluntarioso, sinais inequívocos de teimosia, fazem pressentir longos dias de diálogo perro , arrancado a ferros por parte dos seus opositores. A avaliação dos professores é um princípio em si mesmo correcto. Mas o economicismo subjacente à proposta bem como a nítida vontade de criar uma pequena casta no seio das escolas reflectem o apego a valores que me fazem duvidar da limpeza de intenções que a move: poder-se-ia dizer que ela acredita profundamente no que defende mas está errada. Receio, porém, que ela esteja apegada à sua razão, independentemente dos seus motivos. Ou que os seus motivos são bem mais determinados pelo cálculo do deve e do haver politico - no sentido menos nobre - do que genuína vontade de fazer algo que considera correcto. Se esta suspeita se confirmar, teremos que convir que a Senhora Ministra é uma senhora sinistra.

3. Ser de esquerda obriga-me a votar em partidos ou pessoas de esquerda? 1

Os partidos servem para arrumar as nossas escolhas ideológicas e para darem garantia institucional a quem entender fazer da sua vida uma hipótese de representante do seu povo junto da estrutura de poder que regula a lei e a ordem social. De forma prática e eficaz, ainda que a sua legitimidade no que à representação efectiva da realidade social diz respeito seja questionável, concentram-se os partidos em formar e alargar a sua influência sobre grupos que constroem artificialmente uma ideia de síntese programática, o que irá ter como efeito a criação de sentimento de igualdade e de reconhecimento mútuo de pessoas diversas entre si.
Os partidos acrescentam um elo mais de socialização, desta feita entre aqueles indivíduos que procuram ser seus militantes ou simpatizantes e que lhes permite reconhecerem-se de alguma forma.
Mas os partidos mais ideológicos, menos dependentes das lideranças e dos desvios à crença inicial, estão nas extremas do sistema partidário. Aí corre-se menos riscos de ser traído quanto à natureza da ideologia que se escolhe na altura da votação e aquela outra que parece que depois deriva do efectivo exercício do poder; até porque se encontram mais longe do exercício do poder, logo estão menos sujeitos a serem escrutinados quanto ao seu comportamento nessa fase.
Já nos partidos que concorrem com efectivas possibilidades de vencer eleições e que precisam de procurar eleitores em vários espectros sociais e ideológicos, situano-se mais ao centro, o risco de traição relativamente ao programa sufragado, ou idealizado como representando uma ideia de esquerda ou de direita, é depois, na prática, sujeito a adequações aos interesses histórico e sociais do momento, que, não raro, baralham as ideologias políticas, em nome de forças mais poderosas (o dinheiro, o trabalho, o domínio de certos privilégios sociais, etc.), ou segundo a vontade do seu líder.

terça-feira, 18 de Novembro de 2008

A Esquerda e o Amor

O romance acredito, tratar-se de um sentimento/estado-de-espírito de esquerda. Ok, eu explico. A direita, ao configurar a realidade e a conduta social em tipificações comportamentais, assume que os sentimentos devem ser reprimidos e mantidos no segredo da alcova iluminada pela média-luz de uma vela. Os sentimentos amorosos - e as consequentes demonstrações públicas de afecto - são contas de rosários particulares, e as boas maneiras obrigam a serem controlados. A esquerda, fruto de um fulgor romântico-liberal, consanguiniza-se com o desejo incontrolável e com as manifestações públicas de afecto, ao mesmo tempo que se compadria com o amor não correspondido, bucólico e poético.

Isto tudo para dizer que é natural, à esquerda, a vivência livre e espontânea do amor. Porque apreende os afectos como algo natural, profundamente humano, não lhes atribuí qualquer conotação pecaminosa-religiosa. Por entender a união entre seres humanos como parte da vivência social, cognitiva, espiritual e física dos indivíduos, a esquerda jamais deverá (e felizmente não o faz) condenar as uniões homossexuais, poligâmicas, ou o tão simples e natural sexo pré-matrimonial. À esquerda cabe o papel de defender e garantir a experiência individual e livre da sexualidade. E sexualidade é apenas um exemplo da importância da defesa das liberdades.

terça-feira, 11 de Novembro de 2008

José Ferreira Barroco e Sousa

Estou bastante interessada nesta figura do pensamento e da acção política portuguesa. Na primeira década do século XX e já este autor proponha um código do trabalho completamente reformador, com uma visão sobre a indigência e as condições de vida social e económica dos trabalhadores que não fica a dever nada ao dos grandes socialistas nórdicos. Um "socialista municipal", monárquico, com uma visão totalmente diferente da ideia à época, defensora dos interesses capitalistas, acerca dos valores a defender na economia política.

Cerca de cem anos depois e o Prof. Rui figueiredo Marques apresentou em conferência uma voz original, e não me atrevo a qualificar de única por desconhecimento do círculo político da época, sobre as questões laborais e institucionais do nosso país (antes do tempo das revoluções socialistas). Sem conceder ao Estado o papel de interventor, mas sem lhe retirar a função fiscalizadora, ele soube procurar equilíbrio entre a recusa de uma economia dirigida e uma economia sem regulação. Uma leitura a ser feita hoje em dia, julgo eu.

Quisera eu que o país tivesse encontrado então nele um modelo universal de prática política e de resolução social dos problemas, quanto défice democrático nos teria sido poupado!

2. Uma mulher deve ser de esquerda? 2

Na continuidade do que afirmei antes, a esquerda só interessará a uma mulher quando casos como estes fizerem parte dos programas e das acções dos políticos de esquerda. Quando a questão dos direitos das mulheres deixar de ser um "fait divers" nas mesas de negociações políticas do mundo, e se começar a atender a essa questão ao mais alto nível da tomada de decisões.

Até essa reforma da esquerda acontecer, uma mulher deve pensar pela sua cabeça e votar pragmaticamente naqueles que em cada momento configurarem em discurso e acção a melhor forma de solucionarem as questões públicas. Mesmo assim... o que isto não custa, pois é mais fácil enfiar um barrete e pensar que estamos em marcha.

segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

A Esquerda e o Património

Um dos handicaps apontados à direita tradicionalista é o seu conservadorismo artístico. A direita tem uma lente através da qual vê as manifestações artísticas. Por sinal, uma lente muito baça. Na restrita noção de «cultura» às direitas cabe essencialmente os cânones tradicionais e patrimoniais: o ballet, a música clássica-erudita, o teatro clássico, o património arquitectónico, o fado, a literatura querosiana e o naturalismo e impressionismo plástico. A direita não se compadece com as novas expressões artísticas ou novos temas abordados, nem tão-pouco lhes reconhece mérito.

Contudo, importa para este post relembrar, que a esquerda, também ela, vem carregada de preconceitos artísticos. Para a esquerda mais extremista, o processo é o inverso da tradicional direita. O que importa são as novas correntes de expressão artística, como o pós-modernismo, o neo-cubismo, o teatro multicultural e de novos cenários e temáticas, os novos escultores de expressão arrojada, a música dos novos palcos, etc. Não lhes é familiar o cancioneiro nacional, o fado, o património arquitectónico sob todas as suas formas, a arte clássica, a preservação histórico-cultural.

A esquerda, defeituosamente, prefere o imediato ao sempieterno, o que está na moda ao que é histórico-identitário. Não consegue conjugar a preservação do cultural heritage ao mesmo tempo que apoia as novas correntes artísticas. Porque vive do sensacionalismo do momento é incapaz de reconhecer valor e capital importância ao que lhe é passado pelas gerações anteriores. Herdou da rebeldia da conduta social o lado mais imediatista. É uma corrente política que caminha manca e arrogante. Precisamente como a direita que tanto gosta de acusar.

sexta-feira, 7 de Novembro de 2008

Ainda os "desabafos"

1. Apesar de tudo – e o “tudo” é a bonomia da amizade sentida por alguns que eu fui vendo envelhecer antes de mim – tenho latente a desconfiança perante tudo o que é desabafo, rabugice, má caramunha, rezinguice de solilóquios mais ou menos doridos, enfim, perante essa arte de ser, com alguma suavidade, descontente. Tenho latente a desconfiança por todos esses conjuntos de crenças superficiais, que fazem do mundo um teatro de sombras imprecisas e evanescentes e que se manifestam no âmbito do que, usualmente, designo por fenomenologia da individualidade.
António Negri, um filósofo de propostas controversas e discutíveis, “mesmo inquietantes”, como escreveu Eduardo Prado Coelho, caracteriza a individualidade como o que está inserido numa realidade substancial e que, por separação em relação à totalidade, ganha uma consistência e uma consciência. O conceito de indivíduo é, de facto, um conceito que expressa a relação do indivíduo com uma realidade transcendente, absoluta, em que a relação não é entre tu, eu, ele, o que confere a esse indivíduo a consistência de uma identidade irredutível.
O mundo da individualidade é o mundo da inexistência de gradações e de zonas de interacção nas quais se vive com o outro e se reconhece o outro como tal, é o mundo do maniqueísmo do bom e do mau, do certo e do errado, da antinomia entre a individualidade e a diferença, entre o privado e o público. É, por último, uma potência centrípeta produto das circunstâncias específicas que a rodeiam e, dentro dos limites que as condições física e sociais lhe impõem, produto da sua própria acção.

2. Não sou sociólogo ou antropólogo, a epistemologia da comunicação é-me quase tão estranha como a táctica futebolística do losango. Mas gostava de compreender, mais do que descrever, os mecanismos perversos que reificam as representações individuais num sistema de crenças, num conjunto colectivo de categorias sociais, subordinadas à abstracção de um hipotético interesse geral.
Penso na eleição de Obama, a eleição histórica que não deixou o mundo indiferente, e penso, entre todos os que nele votaram ou se regozijaram com a sua eleição, quantos conhecem, efectivamente, o seu programa eleitoral. Infelizmente o jogo eleitoral, sabemo-lo de há muito, ganha expressão no âmbito do mundo da individualidade e, muito pouco, no âmbito da experiência de ligações intrínsecas comuns do ponto de vista da liberdade e da cultura.

3. Amanhã (hoje) esperamos milhares de professores na rua. Se é indiscutível que ganharemos a rua, gostaria de ganhar os pais, os alunos, os outros, em suma.
Acredito que mobilizar, actualmente e de forma revolucionária, a sociedade, significa entrar profundamente nas consciências e criar novas formas de produção da subjectividade no interior dos novos esquemas produtivos, porque é aqui que as pessoas vulgares fazem a sua história, ao tentarem ganhar o controlo sobre o seu trabalho, na interacção e no reconhecimento do outro, na interacção entre o existente e o possível.

quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

OBAMA

Falando de desabafos, Barak Obama ganhou às três da manhã e eu finalmente adormeci. Dormi com Ohio e Pennsylvania na algibeira do pijama, seguro de que já nada podia voltar atrás.
Haverá bons motivos para um pacato cidadão da esquerda relutante, céptico e bafejado pelos fumos suaves de desilusões antigas, ainda sacrifique as suas horas de precioso sonho ao encantamento de palavras como "Change" e "Hope"?
Apesar de tudo, sim, há.
A profunda formatação da politica americana e a forma como esta se estrutura num consenso relativamente limitado que oscila entre um reformismo tímido e o reaccionarismo primário de personagens como Dick Cheney e Palin não nos devem deixar esquecer o seguinte:

a) O discurso da diversidade social e cultural reafirmado várias vezes por Barak Obama num esforço de sintonia com as novas realidades demográficas constitui uma expressão política de uma leitura das identidades e da essência de um país que é interessante e nova, merecendo atenção por parte da esquerda como alternativa as visões reificadas das identidades a que me tenho vindo a referir;

b) A escolha era entre um partido onde confluíram, nos últimos anos, as mais tenebrosas correntes de reaccionarismo intelectual, e um outro partido que , apresentou, nesta candidatura concreta, um centramento, ainda que tímido, das suas preocupações em elementos sociais e ambientais que andavam completamente afastados da agenda americana. Dificilmente se pode dizer que se tratou de um confronto entre a direita e a esquerda. Porém, de um lado estavam os discípulos de Leo Strauss, os famosos neo-conservadores com a sua concepção quase pré-moderna de legitimidade: os desvarios comunitaristas da Direita Cristã; uma agenda cultural e social que retinha ainda os traços ideológicos principais da coligação que suportou George Bush. Do outro estava uma plataforma que incluía elementos de liberalismo cultural, tímido reformismo social e uma leitura interessante da diversidade social e cultural, juntamente com a marca de algumas preocupações ambientais há muito esquecidas por George W. A comparação era entre o ácido sulfúrico e água morna com açúcar. Por muito pouco que a segunda entusiasme , toda a gente evita ingerir o primeiro.

c) Finalmente, a história pessoal de Obama tornam-no uma espécie de símbolo de valores mais universalistas que se traduzem num movimento que vale mais pelo que potencia do que pela própria candidatura em si mesma. Depois do securitarismo e do nacionalismo que se seguiram ao 11 de Setembro, impunha-se algum virar de página-
Sem ilusões, prevejo que em muitos domínios, como a politica externa, iremos encontrar em Obama um pouco mais do mesmo, com um pouco mais de abertura ao diálogo. Porém , o balanço, o peso relativo do que estava em presença, realça diferenças inclusive ideológicas que não mereciam ser minimizadas.

Por isso, adormeci convicto na suave ilusão de Morfeu que os últimos oito anos de Administração de George W. Bush não tinham sido outra coisa senão um pesadelo que agora parecia distante e quase esquecido. Façamos uma pausa e deixemos a esperança lamber as feridas até que a realidade lhe pregue novo coice.

segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

A Importância dos Desabafos

Caro FM, os desabafos são teses mais puras e orgânicas que a racional construção de objectivações científicas. Se entrarmos pela formulação dos irmãos Cohen (por sinal um filme mediano) teremos certamente que admitir que este país não está para ninguém que não os políticos, os administradores de grandes empresas e os que recebem da segurança social sem fazerem descontos ou pagarem impostos.

Os desabados são sempre sinceros, porque nascem precisamente antes de se fermentarem as revoltas. São insatisfações contidas e que vão saindo suavemente. Diria doutra maneira, os desabafos são a expressão da revolta do português suave. O que chamamos hoje de desabafos são os lamentos que circulam de boca em boca, nos cafés, nas ombreiras das portas, nos bancos de jardins do nosso querido Portugal. Tão genuínos quanto portugueses. Neles estão contidos muitos gramas da nossa identidade. São primos directos do saudosismo poético, da tristeza fadista, do messianismo profético.

domingo, 2 de Novembro de 2008

Desculpem os desabafos, a Filosofia segue dentro de momentos….

1. Foi o dia de visitar os meus pais no Alentejo. Deixo de lado as considerações sobre as cores fortes dos vinhedos de Borba, ainda por cortar, das árvores de folha caduca que teimam em encher-me o carro de folhas, de todos os resquícios do Outono em manhã de muito frio. Permitam-me que esqueça todas as referências ao país Portugal profundo. Outros as farão, melhor que eu.

Devo à minha terra fronteiriça a compreensão, rudimentar e intuitiva, da economia de mercado e das relações económicas e financeiras, nacionais e internacionais: quando havia estabilidade e desenvolvimento sustentado, existia simetria nas trocas comerciais, ou seja , nós íamos lá comprar o que era mais em conta, eles vinham cá buscar o que era mais em conta; quando eles pagavam mais íamos lá para a apanha da fruta, quando cá se pagava mais vinham eles para apanha do tomate; quando uma das moedas desvalorizava, ia-se comprar ao país que ficava mais barato e trocavam-se piadas : «con un duro compramos portugá» ou «toma lá 10 tostões e vende-me aí as canárias». Com o euro pouco se alterou, apenas as piadas que se referiam a "duros" ou a "tostões" passaram a ser construidas com "cêntimos " e "euritos".

Ontem apercebi-me que, em ambos os lados da fronteira, já só são matéria de piada as inscrições, “cerrado/fechado”, “vende-se/se vende”, “se alquilla/aluga-se», «liquidacion total/em liquidação» expostas nas montras das casas comerciais, grandes e pequenas. Sobretudo pequenas.
E, se calhar, isto já não tem piada.

2. Depois do almoço passeio com o meu pai, com as devidas cautelas que ele, de há uns anos para cá, deixou de ser o infatigável andarilho de caça e pesca e a mim já me vão pesando as pernas de citadino, até a um recanto da muralha que dá para ver até «Toledo e tudo o resto». Dos velhos ao sol, há um antigo aluno da minha mãe que me chama - de menino, a anteceder o diminutivo que toda a vida detestei – e a conversa faz-se, com as queixas do costume, sobretudo. As pensões que não chegam, o preço dos medicamentos, o centro que fechou, a neta que teve de ir nascer lá no meio dos espanhóis, tudo aquilo a que vamos estando habituados a ouvir, nas demagogias de circunstância da televisão, nas rentrées políticas, nos diferentes discursos parlamentares. E falam-me de outras coisas que, por menos mediáticas, pouco se tornam objecto do discurso político: o jogo dos afectos tão esquecido, a solidariedade que se perde, a solidão, a ausência de oportunidades (também) para os velhos.

À despedida, a menina Mariazinha (mais uma que há-de arrastar apodo e diminutivo até morrer) e que lá sabe das minhas convicções (!?) políticas, não mas perdoa: «e eu que até pensava que os do seu lado iam olhar um pouco mais para nós».

3. Faço-me à estrada. Vão ser duas e muitas horas de viagem, temperadas com a derrota do FCP, o golo do Liedson, o saxofone do David Murray, a imagem do meu pai a despedir-se de mim à porta de casa e, entre tudo o mais, uma frase que sempre se imiscui:« a outra coisa são os velhos (…) olham para mim e eu vejo-lhes sempre uma pergunta estampada no rosto».

“Este país não é para canhotos”? Com toda a probabilidade, meu caro João. “Este país não é para velhos”? Pode ter a certeza que não é.