quinta-feira, 31 de Julho de 2008
A MUDANÇA SOCIAL nasce do confronto da diversidade. Da mescla cultural, como se diz no Brasil. Naturalmente que essa transição de um quadro referencial para outro, raras excepções não é feita de forma pacífica. São danos colaterais da alteração de paradigmas. Os ritmos de mudanças não são lineares, não obedecem a um compasso universalista, antes compreendem respostas a estímulos sociais condicionados pelo devir de cada sociedade. Em Portugal, a mudança representou sempre uma antítese da natureza das instituições. Os "brandos costumes" não se compadecem com alterações abruptas das regras sociais. Todavia, a não apetência natural portuguesa para a mudança e para a confrontação -- típicas francesas, p.ex. -- não significa uma regra inabalável, a sociedade portuguesa tem evoluído, inclusive a ritmos superiores nas duas últimas décadas. Naturalmente que tais mudanças vêm carregadas de pequenos campos de energias contrárias.
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Os acontecimentos ocorridas na Quinta da Fonte serviram, sobretudo, como clique de sentimentos reprimidos na generalidade da população. Aqueles que dependem, de uma forma ou de outra, do Estado sabem que os indivíduos de etnia cigana gozam de privilégios únicos próprios da sua condição étnico-social. São esses privilégios, inacessíveis aos demais cidadãos, que tornam os mesmos alvo de desagrados constantes, raras vezes extrapulados acima de tudo por receio. Aliás, a difusão do medo que os ciganos gostam de promover, não tem nada a ver com distâncias sociais e marginalizações xenófobas, é outra coisa. É algo mais concreto e prático: é a realidade per si.
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Há portanto um caldeirão social prestes a transbordar, contido unicamente pelo medo, um dos sentimentos mais fortes e negativos que condicionam a vivência plena do indivíduo. As declarações proferidas pela magistrada Ana Gabriela Freitas [link], juíza no Tribunal de Felgueiras, denotam esse sentimento de cansaço social, relativamente a um conjunto de indivíduos que formam uma etnia, que vivendo de subsídios estatais -- dos quais a maioria não necessita -- retribuem com a desordem pública, a difusão do medo e o desrespeito pelas normas básicas que compõe o traçado social. É xenofobia sim, no estado fermentado. Há agentes por trás da fermentação. A extrema-esquerda tem de fazer mea culpa por estas vantagens adquiridas e não conquistadas. Urgentemente.
Lemos, Gostamos, Citamos
A PROPÓSITO das regras do livre comércio e da Ronda de Genebra, escrevi há dias um post chamado «Paradigmas em Confronto» [link]. Entretanto João Rodrigues, no «Ladrões de Bibicletas», reforça a minha ideia, indirectamente:
(...) A ficção do comércio livre é na realidade o proteccionismo dos mais fortes (F. List). Além disso, o sistema de regras que estrutura as relações económicas internacionais no quadro da OMC já corre hoje o risco de atrofiar «o espaço de desenvolvimento» disponível para os países mais pobres adoptarem políticas e soluções de protecção económica selectiva. Tal como fizeram e fazem os países mais ricos. Por isso, qualquer acordo para aprofundar a liberalização seria sempre prejudicial para o desenvolvimento. Felizmente, já não estamos no tempo do imperialismo do «comércio livre». Habituem-se.
Requalificação Eleitoral [2]
UM DIA depois da sensacional promessa de investimento nas escolas públicas portuguesas, o governo promete a modernização das instalações da Polícia Judiciária. Continua a campanha eleitoral. Há coisas que nunca mudam.
quarta-feira, 30 de Julho de 2008
Requalificação Eleitoral
COM AS ELEIÇÕES de 2009 aí à porta, José Sócrates prepara mais uma rodada de promessas, muitas impraticáveis. Obviamente que o primeiro-ministro sabe que a vitória sorrirá a quem melhor controlar o espaço mediático e produzir um maior número de promessas por segundo. É uma lei da prática política. Sabendo que o sistema de educação português permanece como um tema quente na agenda pública e política, o governo avança com uma medida sensacionalista: 400 milhões de euros para colocar as escolas portuguesas na rota do ciberespaço. A medida, que parecerá virtuosa à primeira vista, esconde a realidade que traduzirá: um punhado de escolas públicas sem condições físicas mas equipadas com internet. Mais um síndroma do provincianismo burguês nacional, Mercedes à porta sem gasolina para andar.
A Oriente nada de novo
PARA ALÉM dos muros de uma China economicamente incómoda, mora uma realidade política e social constrangedora e aberrante. Ao sabor da não-ingerência nos assuntos internos dos Estados, associada à poder potencial do país, a China vai mantendo a sua violação dos direitos humanos. Segundo noticia o «Público» [link] um professor chinês foi detido por ter partilhado fotografias de escolas que desabaram em consequência do sismo que abalou a província chinesa de Sichuan, em Maio passado. Há coisas que a real politik não deve abranger. Os direitos humanos são supranacionais.
O show tem de continuar
GILBERTO GIL tem sido um Ministro da Cultura popular e eficiente. Com ele a diversidade cultural tem sido amplamente priveligiada. A noção de cultura em movimento tem clara visibilidade no seu gabinete. GG foi a escolha mais acertada, dando uma chapada de luva branca em países como Portugal, onde o cargo de Ministro da Cultura tem sido entregue a membros dos salões de chá e corredores políticos. No entanto, o bicho dos palcos consome Gilberto Gil. A agenda é apertada. É hora de regressar ao mundo das artes. Enquanto se prepara a sua saída crescem os rumores sobre a sucessão, sendo os nomes de Juca Ferreira (executivo) e Sérgio Mamberti (identidade e diversidade cultural) os mais plausíveis. [link]
Chinese Umbrella
CHEN DEMING, ministro do comércio chinês, manifestou-se extremamente insatisfeito com os resultados negativos da Ronda de Genebra. O "falhanço trágico", palavras suas, derivou da incapacidade "de dois países em ultrapassar as suas divergências". Apesar de não citar nomes, é bem provável que Deming se estivesse a referir aos Estados Unidos e Índia. Todavia, a China não pode apontar descaradamente o dedo ao status do comércio internacional, uma vez que ao sabor dos seus factores de poder tem conseguido ludibriar as regras internacionais: excede a sua quota anual de exportações em pouco mais de um mês, mantém as suas barreiras à importação e não se encontra disponível para falar de direitos humanos. A necessidade de negociar com a China requer engolir alguns sapos.
terça-feira, 29 de Julho de 2008
A Devida Correcção
POR FAVOR, caro Gonçalo Capitão, não me chame de extrema-esquerda. Se há coisa que detesto é o discurso de lugares-comuns do BE e companhia. Esquerda, mas esquerda saudável.
Paradigmas em Confronto
DURANTE DÉCADAS os países do «centro»- termo cepalino - ditaram as regras no ordenamento global. De entre essas regras constava, categoricamente, a abertura unilateral da periferia aos produtos e capitais dos países desenvolvidos, sob uma aparente intenção de levantar os proteccionismos agrícolas. Todavia, as regras capitalistas têm-se alterado. Os países periféricos substituiram os governos de alinhamento subserviente por governos que priveligiam a sua autonomia decisória. O sucesso dos alinhamentos ao Sul criaram focos de poder negocial. Hoje, com a força que os países emergentes conseguem ter, alicerçados nos seus próprios factores de poder, o centro do poder prova do seu próprio veneno. É a dor de cabeça dos liberais-conservadores.
Destros [2]
MANUELA FERREIRA LEITE concedeu uma entrevista ao «Expresso». Nela a nova líder do PSD afirma não pretender reclamar uma maioria absoluta, acreditando poder governar em coligações, um pouco como fazem o PT e o PSDB por todo o mapa político brasileiro. MFL irá apelar aos portugueses para votarem "em quem acham que melhor vai resolver os problemas", o que pode motivar uma leitura imediata e simples: apelo ao voto em branco.
Lemos, Gostamos, Citamos
Cem mil alemães foram ouvir Obama. Claro que a obamomania chegou à Europa. Chegou até antes de se instalar nos EUA. Mas as razões de tamanha multidão são talvez mais simples: muitos quiseram assistir a um momento histórico e Obama poderá vir a ser o presidente depois de Bush. E, para a maioria dos europeus, depois de Bush só pode ser melhor.Obama começa a sua caminhada pela a Europa a pedir aos europeus mais tropas no Afeganistão. Um pouco repetitivo, isto dos presidentes ou apenas candidatos verem a Europa como centro de recrutamento militar. Que tal falar da crise económica e da crise do petróleo que está a deixar os europeus de tanga? Ou sobre Quioto? Só para variar um pouco. Bem sei que esta visita é para consumo interno e que os europeus não votam. Mas, apesar de tudo, podiam ser mais do que um cenário. Digo eu, que até simpatizo com o homem. [link]
# Daniel Oliveira in «Arrastão»
O Princípio da Transparência
NUM PAÍS minado pela corrupção financeira e mental, a procura por um emprego justo e adequado apresenta-se cada vez mais como a busca do "el dorado". Paralelamente ao descrito na constituição, Portugal tem como modelo governativo uma «tachocracia» onde todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros. Isto, a propósito do post n'«O Jumento» [link] sobre o concurso público para a Câmara Municipal de Loulé. Os requisitos exigidos são de tal ordem específicos que deveriam ir com um p.s. particular: "cumprimentos ao paizinho, sim?".
Respirar de Novo
ACOMPANHANDO as regras do mercado a Galp - que deverá ser acompanhada pelas demais companhias petrolíferas - ajustou o preço da gasolina 95 e do gasóleo em 4 e 3 cêntimos, respectivamente. É possível respirar um pouco melhor. [link]
sexta-feira, 25 de Julho de 2008
E De Repente...
...A DIREITA tem razão. Não serão muitas as vezes em que tal é imperativo afirmar, mas neste caso é. O post assinado por Gonçalo Capitão no «31 da Armada» é de uma clareza e realidade quase chocante. À excepção da cristalização do conceito de "casamento" tudo o resto é necessário subscrever. As feridas em que toca, particularmente no que refere ao Bloco de Esquerda (BE), mostram uma realidade que está disfigurada. É por essas e por outras que se fala muitas vezes na necessidade de encontrar alternativas políticas à esquerda, à medida que o PS se vai transformando num centrista não sei o quê e o BE e o PCP fazem finca-pé em muitos lugares-comuns.
Está Bonito, pá!
O BLOGUE de Tomás Vasques, «Hoje Há Conquilhas Amanhã Não Sabemos», mudou-se para a plataforma dos blogs.sapo. Os parabéns pelo grafismo e a continuação da excelente postagem.
Mania da Perseguição
SE HÁ COISA que me chateia profundamente são as interpretações daquilo que escrevo. Infelizmente já não é a primeira vez que José Pimentel Teixeira o faz. Por isso aproveito para deixar claro que o meu post anterior, referente ao acordo ortográfico não tem nada, rigorosamente nada, a ver com o post de JPT que coloco na revista de blogues. A linkagem foi feita a posteriori. Mais, não li este post ou qualquer outro relacionado de JPT. Ficam feitas as devidas correcções, em nome da verdade.
Lucidez Embriagada
HÁ MUDANÇAS ESTRUTURAIS em marcha. O acordo ortográfico e a Cimeira da CPLP são apenas os palcos institucionais da metamorfose. Os códigos sociais em confronto trabalham inconscientemente para a reformulação de um paradigma identitário. As alterações sociais criadas pela imigração massiva de culturas distintas -- particularmente a brasileira -- aceleraram os processos tradicionais de mudanças e rupturas. A mobilidade social, a globalização e a maturação da consciente de uma identidade transportam as bases da alteração da estrutura vigente. Naturalmente as rupturas acarretam uma carga q.b. de confrontos subjacentes. A matéria da imigração e as mudanças sociais -- vislumbra-se um carácter social nacional -- são terreno arenoso. A discussão acerca de uma nova identidade requer uma abordagem melindrosa mas coerente. Há na sociedade portuguesa um sentimento de rejeição e de bloqueamento da mudança. Onde outrora era possível encontrar um fascínio claro pela exótica cultura brasileira -- naturalmente motivada pela distância, pelo desconhecimento e pelos fluxos de imagens filtradas --, hoje encontra-se um desgosto xenófobo motivado por uma imigração de baixa formação cívica e cultural. Essa postura anti-relacional funciona como bloqueio de uma mudança que opera no subsolo das relações sociais.
A rejeição do acordo ortográfico é o mais claro exemplo desta contra força social. A política da língua portuguesa no mundo requer uma uniformização, padronização e aproximação dos actores sociais constantes do processo. O isolamento linguístico (e deste modo político) não representa uma estratégica. O colonialismo esgotou-se no tempo. o Brasil, à luz da nova ordem internacional, é um actor emergente com propensão a parte integrante do ordenamento global. A associação a este país não é uma opção mas uma inevitabilidade política, que o governo português tem cada vez maior consciência. Contrariamente a essa consciência política, há uma desaprovação social latente, que funcionará sempre como estanque do processo (sabemos que um paradigma requer uma aceitação social para que seja operante). Nesse sentido, a leitura de diversas opiniões contrárias (link) e até mesmo carregadas de um caldo xenófobo, não têm se não a ver com confrontos sociais camuflados. A língua é só uma desculpa.
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REVISTA DE BLOGUES (incompleta):
"grandes gestos para uma pequena CPLP", in Alto Hama
"o cavaquismo caiu na rua", in Câmara Corporativa
"ainda o acordo ortográfico", in O Hermenauta
Aos Solavancos
A TERMINAR a VII Cimeira da CPLP fica a ideia de que o organismo de aproximação político-cultural dos países da Lusofonia vive de empurrões circunstanciais, de vagas e contra-vagas, um pouco ao jeito das vagas democráticas que Samuel Huntington explanou. Longos períodos de ausência de actividades, de silêncios laboriosos, são interrompidos por epifenómenos de grandes ideias e projectos, normalmente correspondendo às datas das Cimeiras. A CPLP vive, por isso, de uma agenda flutuante e mediática, cujos contornos não se traduzem em verdadeiros programas práticos. José Sócrates avançou um conjunto de projectos-pilotos como a criação de uma rede de escolas dos países da CPLP, uma biblioteca comum online, um projecto de televisão na Internet gerida conjuntamente por todos os países da CPLP e uma acção coordenada entre os centros culturais. O primeiro-ministro português afirmou ainda que o organismo atravessa uma fase de maturação e que requer uma maior projecção internacional, cujos contornos passam pela promoção da língua portuguesa no mundo, tal como Cavaco Silva já havia pronunciado. Resta saber se as ideias permanecerão na gaveta ou se é desta vez que a CPLP deixa de ser um gentlemen's club.
quinta-feira, 24 de Julho de 2008
Destros
NO SEU BLOGUE, «O Estado do Tempo» (de inegável qualidade de escrita e gráfica), António Bastos, apelida Salazar de "glorioso" e chama a atenção para uma peixeira saudosista dos tempos do ditador [link]. Não sei que valor o blogger atribui à liberdade - da minha parte valor fundamental - nem tal vem para o caso, mas olhar as desmotivações actuais dos portugueses, e um certo saudosismo provinciano, como vontade nacional é perigoso, principalmente se não levarmos em linha de conta as razões por trás desse sentimento. O povo, ao não exercer a sua liberdade de forma activa, quando se vê desprovido dela não lhe sente notável falta. Ao invés, ao sentir-se inseguro nas suas casas sente fervilhar a sua insatisfação. São precisamente os ciclos de crise económica, política e social que geram sentimentos pró-ditatoriais. É um facto.
Directiva de Retorno
O TEMA QUENTE desta Cimeira da CPLP prende-se imigração e a chamada «Directiva de Retorno», que entrará em vigor em 2010 e que estabelece o repatriamentos dos imigrantes ilegais e a proibição de uma entrada no espaço comunitário europeu por um período de cinco anos. Os países africanos e sul-americanos já fizeram saber a sua forte oposição à directiva. A imigração é, portanto, um dos grandes imbróglios diplomáticos da Era da Globalização. Apesar da polémica gerada pelo tema, é forçoso entender que a livre circulação de pessoas é uma realidade e uma mais valia para o dinamismo cultural e para a criação de novas leituras do real. Cria-se uma interdependência positiva entre os povos. Contrariamente a este efeito positivo da imigração surgem outras questões: a imigração ilegal e os modelos de inserção. Pode-se discutir se uma sociedade é mais ou menos permissiva à circulação de pessoas, se estamos perante uma sociedade mais arcaica ou com maior mobilidade social, etc., não se pode (nem se deve) discutir a ilegalidade seja daquilo que for. Por abordar a condição humana, a imigração tem um peso diferente. E deve ter. Contudo, a ilegalidade não é positiva nem para o imigrante nem para o país de acolhimento, uma vez que ele não será alvo de políticas de inserção e estará à mercê do emaranhado do crime e da exploração do trabalho. Por outro lado, os imigrantes ilegais são também pessoas que, pela sua condição, desestruturam a lógica do mercado, ao auferirem vencimentos inferiores ao tecto normal, criando desregulações extremamente negativas para os cidadãos do país de acolhimento. Da mesma maneira, os países de partida deverão entender a perspectiva dos países de acolhimento, uma vez que a imigração ilegal está também associada à crescente da criminalidade. Já me dizia um conhecido brasileiro: "a criminalidade no Brasil está com tendência a diminuir porque os bandidos estão vindo todos para cá. É matemática simples". Os governos, a classe política e a sociedade civil têm de entender isso.
A nova CPLP
REALIZA-SE entre hoje e amanhã a VII Cimeira da CPLP. Para além da questão do acordo ortográfico, que já abordei aqui, é importante salientar a presença dos países observadores da CPLP, isto é, em língua corrente, os países que pretendem aderir à comunidade dos países de língua portuguesa: Guiné Equatorial, Senegal, Venezuela, Ucrânia e Croácia. Ou muito me engano ou estes países falam tanto português quanto o Bangladesh. Portanto, a questão central da CPLP - reunião de países unidos por uma mesma língua e assim traços culturais comuns - parece tender a dissolver-se, à medida que os interesses meramente económicos e migratórios, estratégicos portanto, assumem papel cimeiro no processo político da CPLP. Se por um lado, estes novos caminhos conferem maior dinamismo e amplitude ao centro de poder da CPLP, por outro lado, a política lusófona de José Aparecido de Oliveira, pai do projecto da CPLP, perde-se no complexo de negociações e interesses.Há portanto, uma nova CPLP em marcha. Este pressuposto é inegável, e confere a Portugal (e claro ao Brasil, propulsor da CPLP e grande potência emergente) uma nova lógica de inserção internacional, pragmática e operante em várias frentes com claros interesses de alargamento económico. Todavia, é importante que não se perca o aspecto cultural da CPLP, ideia que nunca foi verdadeiramente implementada. Vamos acompanhando.
#publicado originalmente [aqui]
quarta-feira, 23 de Julho de 2008
Tema Incómodo
OS CONFLITOS ocorridos na Quinta da Fonte, por sua carga étnica tornaram-se um tema extremamente incómodo para o poder político. À excepção do BE, que aproveita todas as oportunidades para vir falar em racismo, choque civilizacional e demais lugares-comuns da sua política para os media, nenhum outro partido deu particular relevo à situação. No fundo todos compreendem que o caso tem mais a ver com gente que vive à custa de uma segurança social da qual não necessita realmente (vão ver os carros e os interiores das casas) do que com um empurrar de etnias para as periferias. É obrigatório concordar com o «Jumento», a classe política " fez de conta que tinha antecipado as férias".
Mercado Alternativo
OS CICLOS da crise tendem a gerar, por um lado, pequenos negócios paralelos e por outro, um aumento dos pequenos e médios delitos. Sabemos que os primeiros afectados pela crise são os mais carenciados, aqueles cujos rendimentos são compulsivamente afectados pelas flutuações dos preços e pelos agravamentos económicos. Isso justifica, em boa medida, o recurso ao furto de bens alimentícios (já não justificando as pilhagens e os assaltos urbanos), situação que o Estado deve controlar, actuando com mecanismos de minoração dos efeitos laterais das crises económicas. Por seu turno, os negócios paralelos não encontram desculpabilização possível, reforçando as teias de pequenos crimes que geram grandes perdas financeiras. Gestores de stocks, transportadoras e mercado negro andam, nestes tempos, de braço-dado, aliciando os mais susceptíveis -- quer por ausência de valores morais, quer por necessidade financeira fruto das instabilidades económicas -- que entram num ciclo vicioso de mercados alternativos, desviando dezenas de aparelhos de alta tecnologia facilmentes escoados no submundo do crime. A situação requer medidas drásticas.terça-feira, 22 de Julho de 2008
E Trabalhar, não?
COMPREENDE-SE que o sistema no qual assenta a lógica do contrato social requer a existência de uma classe política. Vem de longe. Já no Senado romano o ócio, perdão, a profissão política era sinónimo de prestígio social e de uma certa capacidade de influenciar os poderes dissimulados a fim de criar vantagens pessoais. Inegável. Hoje existem escolas de gandulagem de fato e gravata, chamam-se Juventudes Partidárias. O conceito básico é o mesmo das cerimónias de iniciação aos gangs suburbanos, só que no caso das J's os crimes são mais limpos. Infelizmente as Juventudes Partidárias tornaram-se nos embriões de uma classe dirigente que cedo aprende as artimanhas dos corredores do poder, dos acordos nas sombras. Ao cabo do período de aprendizado das cedências e dos esquemas, os mais aptos são realojados nos quadros da "gente grande", passando a contar como mais um político (como se as cidades de Lisboa e Porto não tivessem já arrumadores e malabaristas suficientes). Pode-se falar até em legados directivos, tudo bem, mas convenhamos que aqueles que lá estão apresentem algo palpável, não podem ser 100 por cento desocupados, ou podem?
Governos e Alianças
[fonte]
Cliché
A distinção entre esquerda e direita, ideologicamente, alicerça-se em interpretações sociais como o acesso à saúde, à escolaridade, a mobilidade social, o património cultural, a liberdade religiosa, a liberdade sexual, as migrações e as etnias. São imagens-centrais dos discursos possíveis. Todavia, a esquerda carrega um cliché que a condiciona e a torna, muitas vezes, irracional: o valor supremo da defesa das minorias étnicas. Ao invés de analisar o sujeito pelo sujeito, sem diferenças e sem etnicidade, a esquerda simplista cai no erro de ler o real a partir da ideia de racismo e xenofobia. Quem na esquerda condenar os acontecimentos da "quinta da fonte" sem usar a lente da desculpabilização racial é mal-entendido por essa esquerda. No entanto, é precisamente essa esquerda que mantém o status quo do discurso racial, ao fazer prevalecer o discurso da vitimização. Conhecem a expressão "vai trabalhar, malandro!"? É por aí.
Os Miseráveis e os Nem Tanto
HÁ UMA BOMBA-RELÓGIO na sociedade civil chamada «etnicidade», que ao mesmo tempo serve como propulsora e clivagem de confrontos e distâncias sociais. Mas há também discursos dirigidos e construídos em torno de ideias e imagens fecundadas nas universidades mas que não encontram correspondência no real. Essas ideias não-verificáveis servem de bandeira a partidos como o Bloco de Esquerda, que reconstroem a ideia de esquerda à luz da defesa das causas perdidas. É precisamente por essas questões que o texto produzido no blogue «O Jumento», intitulado "pobreza, miséria e gandulice" [link] vem tão a propósito. Porque a etnicidade não serve para receber favor especiais nem deve prevalecer sobre a igualdade democrática. No entanto, o que verificamos é que existe um conjunto de indivíduos que se propagam pelos arredores urbanos e que vivem à sombra de uma segurança social para a qual não contribuem, nem têm intenção de contribuir. Já dizia um cigano: "onde cigano pisa nem erva daninha nasce". isto é significativo do carácter anti-compromisso social que tais indivíduos apresentam. Parafraseando o Tiago Barbosa Ribeiro, " é da raça".
É claro que estes comentários serão tão mais rotulados como racistas e de direita, quanto menor for a noção da realidade. Porque se há valor que prezo é o da igualdade entre todos, sem distinções de quaisquer ordens. Agora a igualdade não pode ser fragmentada e há uma clara diferença entre aqueles que são miseráveis e os outros que se fazer passar por tal.
terça-feira, 15 de Julho de 2008
Ciganos de Ouro
A comunidade cigana que rejeita qualquer forma de actividade cívica que não seja uma que lhes satisfaça as vontades, vê-se agora numa situação igual a tantos outros portugueses. De repente parecem interessados em dialogar com as autoridades. Lamentavelmente, muitas das mais valias de que têm sido alvo têm na esquerda mais firme grande culpada.
segunda-feira, 14 de Julho de 2008
Uma Questão de Perspectiva
O «Público» online noticia os resultados do estudo "Um Olhar Sobre a Pobreza - Vulnerabilidade e Exclusão Social no Portugal Contemporâneo" levado a cabo pelo Conselho Económico e Social. A manchete é bastante curiosa e apresenta-se como uma bandeira do governo: trinta e cinco por cento dos portugueses pobres têm emprego. Fantástico. Na verdade a leitura seria outra se a notícia fosse lançada nos seguintes termos: sessenta e cinco por cento dos portugueses pobres não têm emprego. Mais realista.
sexta-feira, 11 de Julho de 2008
Desfragmentação do País Relativo
quinta-feira, 10 de Julho de 2008
De repente algo de novo...
A pensar nas eleições de 2009 -- como qualquer governo, diga-se em nome da verdade -- José Sócrates anuncia medidas sociais para fazer face às restantes medidas do seu governo, é o contrabalanço, digamos assim. Entre elas está a criação de um "passe escolar" que tornará mais barato o uso dos transportes públicos por crianças e jovens entre os 4 e os 18 anos. De repento algo à esquerda.
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