terça-feira, 14 de Outubro de 2008

T.I.N.A. (There Is no Alternative ) [2]

Jean Ziegler é actualmente na ONU o relator especial da Comissão dos Direitos do Homem sobre o direito à alimentação. Em «O Império da Vergonha», acusa a multinacionalização e monopolização de se constituírem como os vectores fundamentais do modo de produção capitalista, num processo de refeudalização e autonomização do capital que gera um conjunto minoritário de grupos financeiros mundialmente poderosos, com poder de desafiarem os direitos normativos dos estados e o interesse geral. Gera-se um novo despotismo que mostra uma fria arrogância face aos estados e às suas leis, que pratica a chantagem da deslocação. Se as suas pretensões não forem satisfeitas – garantirem margens de lucro ainda mais elevadas – ameaçam sindicatos e governos com o encerramento das suas unidades produtivas e a consequente instalação das mesmas em paragens mais acolhedoras.

São estes os novos senhores feudais do planeta globalizado, que Ziegler designa por “cosmocratas”, em cuja primeira fila figuram os dirigentes das grandes empresas transcontinentais. Os cosmocratas «têm horror a qualquer ideia de intervenção voluntarista no livre jogo do mercado. E longe de encararem a redistribuição, nem que seja de uma pequena parte dos seus lucros supérfluos, eles continuam a suprimir; às centenas de milhares os postos de trabalho, a reduzir os salários, a restringir as despesas sociais e a realizar fusões á custa dos assalariados» (p.33). O único motor destes novos senhores feudais é a acumulação dos ganhos privados, a extensão continuada do poder e eliminação de todos os obstáculos sociais. A análise de Ziegler, constantemente fundamentada em relatórios, estatísticas e gráficos de organismos tão insuspeitos como a OMS, a UNICEF ou a FAO, estende-se desde a denúncia da investigação, produção e experimentação de novos medicamentos, da corrupção e da pilhagem dos tesouros públicos dos países do terceiro mundo, da manutenção artificial da divida externa dos países pobres, até ao fenómeno da produção de produtos agrícolas geneticamente modificados, blindadas por patentes de tal forma restritivas que se tornam uma fonte de lucros astronómicos.
Quando olhamos para o panorama geral a imagem da desigualdade é impressionante e configura as principais questões do nosso tempo: a exploração internacional e a divisão hierárquica do trabalho, o racismo, a discriminação de género. Face a este diálogo global-local, são apresentados focos de resistência às injustiças que a nova ordem mundial não pára de criar: o conjunto de redes associativistas na Etiópia, o programa “Fome zero” do Brasil, entre outros.

Mas é, ainda, um David que enfrenta um Golias. Só que David já perdeu a funda. E parece não existir alternativa.