Pode uma pessoa ser de esquerda? 3
Eu penso que as ideias de esquerda nasceram de uma necessidade: proceder a uma alteração não só dos sujeitos/autores tradicionais do poder (há quem defenda que o novo sujeito que se quer no poder é uma bela narrativa: a classe trabalhadora, os proletários), mas sobretudo alterar as próprias relações de poder.
A questão é que essa necessidade sentida por muitos (e na realidade a força da implementação da ideia baseia-se inicialmente na força do número, pois a ideia propriamente dita tem raízes cristãs refreada por um poder militar e judicial que na altura não deixou o movimento expandir-se) é contrária a uma outra necessidade sentida por alguns: a de perpetuar tanto quanto possível o estado de coisas tal como ele era experimentado, sendo que pelo meio há ainda quem advogue que ao obscurantismo das acções ou das decisões tomadas em nome da necessidade (ou de partilhar o poder e a suas benesses, distribuindo ambos pelos cidadãos, ou concentrando num determinado número de indivíduos ditos mais bem preparados pela tradição e pelo hábito para exercer o poder) se deve sobrepor a escolha em liberdade dos que propõem reformas sem a convulsão da revolução que hipoteca toda a ordem social conhecida até então. Isto é, desejam uma ideologia de direita que se deixa convencer pela esquerda sobre o mérito de alguns dos princípios de regulação social e laboral novos (os direitos dos trabalhadores), sem abandonar as instituições e as autoridades antigas, negando a importância da emergência de um novo autor na história das relações sociais: os proletários.
Na verdade, quem já estava no poder (alguns aristocratas) e quem já estava na bordas do poder (muitos pequeno-burgueses) é que alimentou a consciência de uma classe que ainda não a tinha sequer inventado para si, por motivos diversos e nem sempre por medo. A literatura socialista não foi escrita por um explorado proletário nas suas poucas horas de descanso, veio dos seus observadores, de teorizadores sociais, de pessoas que sentiram compaixão por uma massa de gente, ou tão só paixão por uma ideia social nova que viram desenrolar à sua frente com um novo actor a desempenhar o papel principal. E porquê? Porque se procurou, mais uma vez na história das ideias, um motor que põe a história em marcha, e se não Deus, ou o espírito da história, então quem? Ora deixa cá ver: quem sustenta as relações económicas? Voilá!
Na realidade, eu julgo que o socialismo é só mais uma procura de um fundamento das relações de poder, tanto quanto outra qualquer forma de entender a acção política e social. O problema nem estará na crença inabalável na vitória ou no futuro dessa crença, que para todos os efeitos tem ideias normativas de regulação dos comportamentos bem solidárias entre os indivíduos de uma mesma sociedade, mas sim na ignorância sobre a coexistência de outros fundamentos para a acção que se degladiam entre si, não só dentro do mesmo grupo, como dentro da mesma pessoa. A negação dos paradoxos dá como resultado a violência sobre o indivíduo. E nesse caso as ideologias parecem-se com o casamento daqueles indivíduos que dizem amar muito o conjugue mas que lhes dão tareias para eles mudarem a sua natureza. Como dizia o agricultor da quinta ocupada depois do vinte e cinco de Abril em resposta ao monitor que lhes ensinava o que significava propriedade colectiva: "Não, não, esta enxada é minha, que a comprei eu."
Porém, há quem defenda que os interesses da maioria sobrepõem-se aos do indivíduo. Eu não tenho tanta certeza quando penso que esse indivíduo possa ser eu. Já sobre os outros... Estou a brincar... Pois.