quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

Pode uma pessoa ser de esquerda? 2

Sim, concordo consigo João, as nossas pertenças intelectuais contemporâneas pressupõem a deriva, os cruzamentos de ideias e de programas, daí não ser já absolutamente estranho a objectivação das nossa escolhas em parcelas de interpretação dos acontecimentos sobre os quais agimos.
Nestas férias consegui ler dois livros de Agustina, a saber, Contemplação carinhosa da angústia (uma antologia de ensaios sobre o carácter dos portugueses e a língua portuguesa, sobre Portugal enfim, e também sobre literatura e autores), e ainda o romance Ordens Menores.
Os ensaios deixaram-me um gosto doce, pelo ritmo das frases e pelas palavras utilizadas, que de tão poéticas me obrigavam a lê-las em voz alta, tanto quanto um travo amargo, pois os textos construídos como os romances, em que a autora vai distribuindo personagens e cenas ao longo de um tempo sempre a ser reconstruído (na memória das personagens ou na da autora), deixa-nos sem uma linha de fuga onde o pensamento se sustente e se estabeleça sobre argumentos sólidos, ou pelo menos coerentes.
Os ensaios são escritos para se apresentarem conclusões definitivas sobre os assuntos explanados, mas recorrendo ao método da circularidade do pensamento, da hesitação dos raciocínios, da possibilidade de dar o dito pelo não dito, senão em termos poéticos pelo menos em termos científicos. Isto é, com Agustina, aprendi que o "mal" português, esta circularidade nos nossos comportamentos que julgamos que controlamos (senão pela nossa inteira vontade, pelo menos através da nossa capacidade de contarmos na escolha dos nossos representantes que têm o poder de condicionar comportamentos), não passa de um conjunto atitudes que revela ser precisamente consequência desse grande modelo que declara ser a indeterminação, a relativização dos princípios, a indiferenciação dos sistemas, e que é o modelo conceptual defendido pelos autores pós-modernistas. O pensamento filosófico que verbera princípios racionais da modernidade em nome da própria realidade, acabou ele próprio por produzir uma realidade social em que não se tendo fixação num modelo de autoridade específico como programa de vida, se acaba por perder toda a autoridade, e que por isso só fica com a força, a violência repressora, como forma de controlo das acções quando estas põem a causa a própria existência dos indivíduos e da sociedade.

Admito que nunca me tinha apercebido como todas as estruturas sociais portuguesas estavam a produzir efeitos derivados de uma causa que estava a montante das suas próprias experiências nacionais. Ora, ignorância minha, se existem valores que queremos universais, independentemente da contingência da história, e se esses princípios através das declarações dos Direitos Humanos se procuram fazer pilares civilizacionais e modelos de acção, como esquecer a hipótese que as teses contrárias terão exactamente a mesma força numa sociedade? E como ignorar, sobretudo, o que só com palmatoada, que o fenómeno da luta de ideias sobre o exercício do poder é tão longa, pelo menos, quanto a própria história do pensamento registado? O que há de novo, nem é tanto haver de um lado quem advogue o relativismo dos valores e do outro uma exigência de universalidade, não, o que há de novo é haver desdobramentos sucessivos no lugar daqueles que defendem valores universais, verdades absolutas, e que no entanto são distintos, e às vezes contraditórios, entre si.
Quem fala verdade, nos que defendem, a verdade do que falam? Se houver modelos económicos e sociais contrários entre si, e se a fundamentação dos seus defensores não for consensual, quem os pode impor como únicos e em nome de que verdade?
Ser de esquerda, ou de direita, continua a ser um esforço de enquadrar a realidade social, de explicar os acontecimentos segundo um modelo. Para não falar da vertente de projecção de ideias para uma sociedade futura sonhada e esperada.
Mas sendo que essa filiação implica a adesão a valores específicos, então como conviver com estruturas sociais como as da família, do grupo profissional ou de amigos, que experimentam a realidade de uma forma múltipla, parcelar, fragmentada, segundo as paixões que se querem imediatamente satisfeitas, o desinteresse, a inércia, o cansaço e o torpor?
Ser de esquerda, ou de direita, começa a equivaler-se à vivência de um sacerdócio em terras de pagãos, não por estes falarem outra língua, mas por viverem efectivamente com as regras dessa outra língua, e não requererm de mais nada, que em tudo se realizam de facto e de formas distintas. E essas formas de vida parece-me que não se coadunam neste momento histórico com a concentração da pessoa num ideal. E no entanto, isso não me parece um mal, e no entanto também não é um bem. Em que ficamos? Há conteúdos fixos que regulem os comportamentos ou não? E isso não é uma coacção efectiva do indivíduo? E a sua liberdade não implicará alguma fixação a estruturas, a procedimentos que estejam para além da sua história pessoal e colectiva? E esses procedimentos, os tais que queremos universais e transhistóricos, estão do lado da ideologia de esquerda? O que me diz, João?