Da Igualdade e da Inveja
A IGUALDADE sempre estimulou a engrenagem da história, muito mais do que a Liberdade, diz Alexis de Tocqueville em «A Democracia na América». Se a Liberdade é apaixonante então tem maior valor para o espírito do que para a experiência social prática, muito mais feita de complexos jogos de poder, de decisões imediatas e de mecanismos inconscientes. A experiência social é uma vida feita dela mesma. Sabemos que desde os primórdios da humanidade, com as sociedades feitas de códigos simples, a luta por uma situação de dominação sempre esteve presente. É como se o poder e a liderança andassem atrelados ao próprio existir. Portanto, se o Homem sempre lutou por posições dominantes, criando assim a dicotomia dominador/dominado, então o conceito de Igualdade não lhe é natural. Sem dúvida que o Homem faz melhor a guerra do que a paz, e a experiência histórica confirma tal afirmação. Os contextos e os mecanismos alteraram-se, dando uma falsa sensação de racionalidade, mas os instintos permanecem intactos, desde as cavernas da humanidade.
SE A IGUALDADE não nos é natural de onde ela vem? Talvez com o próprio debate sobre a natureza humana. Refiro 'debate' sem procurar localizar o conceito ao universo académico, dialéctico ou literato. Debate é antes as primeiras reflexões íntimas sobre o tema. À falta de maiores dados sobre outras religiões e civilizações, atribui-se a génese da igualdade (mais ou menos relativa) ao período inicial cristão, à mensagem profética de Cristo - igualdade perante Deus. Esta primeira ideia de igualdade não transporta a aplicação no modus vivendi. Sermos iguais perante a divindade-criadora não significa sermos iguais uns perante os outros, somos iguais para o arquitecto da vida humana, entre nós é cá connosco. Apesar dessa lacuna, a ideia de igualdade está lá, pela primeira vez (que seja conhecido) há uma nova consciência de humanidade, que não significa jogos de dominação mas antes anuncia a paz universal e a equidade generalizada. Foi um começo.
AMIÚDE, a ideia de Igualdade foi sendo colocada em marcha. No entanto, talvez nunca como antes se tenha falado em Igualdade como na Revolução Francesa. O cansaço perante séculos de totalitarismos e uma exploração grosseira das camadas populares, associado a um iluminismo emergente, terá amadurecido o conceito de Igualdade. Agora igualdade requer igualização das condições, sonha com a qualidade de vida burguesa, com os privilégios nobres e com a propriedade da terra. A terra a quem a trabalha.
NO ENTANTO, a Igualdade não tem tanto a ver com tratamento perante a lei como com equidade de condições. Esta Igualdade é feita de valores, bens e posses, trazendo também a inveja social. Ou seja, a Igualdade não é só tratamento igual - embora numa primeira fase o fosse, face à exploração e discriminação - mas é também feita de coisas concretas, como os bens de luxo. Igualdade passou a significar não igualdade de oportunidades e de tratamento mas igualdade de condições, carregada de uma inveja latente. Para a nova sociedade pós-iluminista, Igualdade é ter exactamente os mesmos bens que o vizinho, mesmo que o caminho para tal seja distinto. Essa é também a génese da criminalidade de bens de consumo.